Edição #169
Pancreatite Aguda: Diagnóstico e Investigação
Pancreatite aguda pode levar a complicações locais e disfunção orgânica. Embora a maioria dos casos seja autolimitada, alguns pacientes evoluem para formas moderadas ou graves, alcançando mortalidade hospitalar de 20% e em um ano de 33% [1,2]. Este tópico revisa o diagnóstico e a investigação inicial da pancreatite aguda.
O tratamento de pancreatite aguda já foi abordado em "Manejo de Pancreatite Aguda" e "Fluidos na Pancreatite Aguda".
Manifestações clínicas
A apresentação inicial mais comum de pancreatite aguda é de dor abdominal intensa, principalmente em epigástrio e hipocôndrio esquerdo, frequentemente irradiada para o dorso e que piora com a alimentação [3,4]. A descrição clássica é de uma faixa de dor no abdome superior. Os pacientes costumam procurar o pronto-socorro em menos de 24 horas do início da dor. Metade dos pacientes descreve dor abdominal em localização atípica, de modo que as características da dor não são suficientes para descartar essa hipótese [5].
Náuseas e vômitos estão presentes em 90% dos casos e febre em até 60% [6]. A síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS) está presente em até 62% dos pacientes na admissão e sua persistência após 48 horas também tem valor prognóstico [7].
Os principais fatores de risco são indícios de etiologias de pancreatite, como histórico de litíase biliar, etilismo e hipertrigliceridemia. Veja mais abaixo em ‘Investigação etiológica’. O risco de pancreatite alcoólica torna-se mais relevante a partir de 5 anos de consumo elevado (> 50 g de álcool por dia ou 4 doses de destilado) [8]. O tabagismo é fator de risco independente e dose-dependente [9]. Também contribuem obesidade, diabetes tipo 2 e história familiar ou mutações genéticas para a doença.
Apresentações atípicas
Apresentações sem dor abdominal ocorrem em até 2,6% dos casos, sendo mais comuns em pacientes com mais de 80 anos. Os sintomas mais frequentes são febre (36%), síncope (32%) e dispneia (16%) [10]. Algumas etiologias de pancreatite estão associadas a quadros indolores, como intoxicação por organofosforados e pneumonias atípicas, em especial infecção por Legionella pneumophila [11-14].
Estudos com autópsia indicam que pancreatite aguda pode ser subdiagnosticada, especialmente em pacientes sem dor, com possibilidade de evolução rápida para óbito, incluindo morte súbita [15-17]. Em uma série com 13 pacientes com diagnóstico somente na autópsia, dor abdominal estava presente em somente um caso [18].
Outros cenários que dificultam a interpretação de dor como sinal de pancreatite são o pós-operatório e o paciente em diálise. Cirurgias cardíacas com bypass cardiopulmonar e cirurgias abdominais podem causar pancreatite [19-21]. A dor esperada no pós-operatório, o estado inflamatório, a elevação esperada de enzimas pancreáticas e o fato de alguns pacientes estarem intubados dificultam a interpretação. Alguns pacientes se apresentam somente com íleo paralítico, choque hemodinâmico ou disfunção orgânica sem causa clara. A diálise aumenta o risco de pancreatite, especialmente a diálise peritoneal [22,23]. As enzimas pancreáticas podem estar elevadas cronicamente nessa população e a dor abdominal pode confundir-se com outras causas no paciente em diálise peritoneal.
Exame físico
Os achados do exame físico dependem da gravidade. Distensão abdominal e dor à palpação do andar superior do abdome são comuns. Em quadros graves, a dor pode ser mais difusa no abdome. Irritação peritoneal é pouco frequente. Os sinais de Cullen e de Grey Turner (equimoses da parede abdominal) são raros, presentes em apenas 3% dos casos [24]. Se associam a apresentações mais graves e ao desenvolvimento de complicações, como pseudocisto pancreático [25]. Icterícia sugere etiologia biliar, mas pode ocorrer somente por edema da cabeça do pâncreas com colestase secundária.
Manifestações extrapancreáticas
Manifestações extrapancreáticas e sinais de disfunção orgânica podem dominar o quadro. Derrame pleural ocorre em 34% dos casos, habitualmente pequeno e à esquerda [26]. Ascite e derrame pericárdico também podem ocorrer [27]. Além de derrame pleural, complicações respiratórias incluem dispneia por irritação diafragmática, atelectasia e síndrome do desconforto respiratório do adulto (SDRA) [28]. A encefalopatia pancreática, que cursa com alteração do estado mental, pode ocorrer em 11% dos pacientes [29].
Paniculite pancreática é uma manifestação rara, ocorrendo como nódulos dolorosos subcutâneos com eritema, predominando em membros inferiores [30]. Pode ocorrer em associação à poliartrite, configurando a síndrome PPP (pancreatite-paniculite-poliartrite) [31]. Sintomas abdominais estão ausentes em muitos casos, com a doença pancreática descoberta somente na imagem [32].
Exames laboratoriais
Exames para diagnóstico
A diretriz do American College of Gastroenterology de 2024 recomenda a lipase como exame preferencial para o diagnóstico de pancreatite aguda, pois a amilase isolada não pode ser usada de forma confiável para o diagnóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38857482/). Solicitar ambas, amilase e lipase, não aumenta a acurácia diagnóstica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28720341/). A lipase é mais sensível e específica que a amilase, eleva-se mais cedo (a partir de 4 horas de dor) e permanece elevada por mais tempo (8 a 14 dias) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38857482/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18191686/). Há recomendação da Sociedade Italiana de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial de solicitar somente a lipase (https://choosingwiselyitaly.org/en/raccomandazione-prof/dont-request-amylase-in-addition-to-lipase-if-acute-pancreatitis-is-suspected/).
Uma vez estabelecido o diagnóstico, não há razão para seriar enzimas pancreáticas, pois não se correlacionam com a gravidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38857482/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31210778/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18191686/).
Pancreatite com enzimas abaixo do limiar diagnóstico (menos que 3 vezes o LSN) ou normais pode ocorrer em uma parcela significativa dos casos. O falso-negativo é mais comum com a amilase. Etiologia alcoólica ou por hipertrigliceridemia, aferição nas primeiras horas do quadro e apresentação tardia aumentam o risco dessa apresentação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2479346/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28689859/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31860051/). Nesses casos, a imagem é necessária para caracterizar o diagnóstico.
Por outro lado, 23% dos pacientes com lipase acima de 3 vezes o LSN não possuem pancreatite aguda (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26646268/). As principais causas de hiperlipasemia não pancreática são cirrose descompensada, insuficiência renal, obstrução intestinal, colecistite aguda, úlcera péptica e doença crítica (tabela 1) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24888393/). Se houver dúvida diagnóstica, como dor abdominal ausente ou duvidosa, um exame de imagem é necessário para caracterizar o diagnóstico. Veja mais abaixo em “Diagnóstico e diagnóstico diferencial”.
Cetoacidose diabética é um diagnóstico diferencial que necessita atenção, pois frequentemente se apresenta com dor abdominal e elevação de lipase e amilase mesmo na ausência de pancreatite aguda (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11051350/). Além disso, a cetoacidose diabética pode cursar com hipertrigliceridemia grave, que pode desencadear pancreatite aguda verdadeira, tornando as duas condições não apenas diagnósticos diferenciais, mas também potencialmente coexistentes (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42061649/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35372444/). Na suspeita clínica, deve-se coletar glicemia capilar e gasometria para confirmar ou excluir cetoacidose. Como os marcadores bioquímicos pancreáticos são pouco confiáveis nesse contexto, a tomografia computadorizada (TC) de abdome é necessária para o diagnóstico de pancreatite aguda.
Exames para prognóstico e investigação etiológica
Exames laboratoriais normalmente solicitados na admissão para avaliar a gravidade do quadro incluem hemograma, ureia, creatinina, eletrólitos (incluindo cálcio), glicemia, perfil hepático e triglicerídeos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36074322/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33496779/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32891214/). Triglicerídeos e cálcio são importantes especialmente na ausência de litíase biliar e história de uso de álcool (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31210778/).
Alguns achados indicam pior prognóstico do episódio de pancreatite aguda, como hematócrito ≥ 44%, hipoalbuminemia, hiperbilirrubinemia e disfunção renal (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31210778/). A doença também pode cursar com leucocitose e disglicemias. Hipocalcemia e proteína C reativa (PCR) ≥ 150 mg/L também podem ocorrer e são marcadores de mau prognóstico, principalmente após 48 horas da apresentação.
Parte dos exames laboratoriais solicitados inicialmente pode indicar a causa da pancreatite:
- Alanina aminotransferase (ALT) > 150 U/L tem valor preditivo positivo de 95% para etiologia biliar (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/7942684/). Valores normais não excluem essa etiologia.
- Triglicerídeos > 1.000 mg/dL indicam pancreatite por hipertrigliceridemia. Deve-se dosar precocemente, pois os níveis caem com o jejum e a hidratação.
- Hipercalcemia pode causar pancreatite, mas como a pancreatite reduz o cálcio circulante, os níveis de cálcio podem estar normais durante o episódio agudo (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32253728/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34154028/). Um nível de cálcio normal-alto em um paciente com pancreatite sem causa clara deve levantar a suspeita e indicar a dosagem de PTH.
Exames de imagem
Em apresentações típicas (dor abdominal com enzimas elevadas), o exame inicial de escolha é o ultrassom (USG) de abdome, indicado para investigar a etiologia biliar (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31685100/). A sensibilidade do USG para cálculos na vesícula biliar é boa (> 95%), mas cai para < 80% no contexto de pancreatite aguda, por íleo e distensão gasosa (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25469022/). Para coledocolitíase, a sensibilidade é baixa (27–50%). Se o USG inicial for inconclusivo, deve ser repetido.
Em casos atípicos, como dor pouco característica e enzimas pancreáticas normais, ou necessidade de excluir diagnósticos diferenciais graves (como perfuração intestinal e isquemia mesentérica), a TC de abdome com contraste ou a ressonância magnética (RM) são os métodos de escolha. Quando realizados precocemente (< 72 horas), porém, subestimam a detecção de complicações, como necrose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31685100/).
Pacientes com pancreatite aguda grave devem fazer TC de abdome com contraste ou RM entre 72 e 96 horas após o início dos sintomas, em busca de complicações como necrose ou coleções (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31685100/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31210778/). A RM é preferível à TC com contraste em casos de alergia grave ao contraste iodado (tabela 2).
Os achados de imagem incluem aumento difuso ou focal do pâncreas por edema inflamatório, densificação da gordura peripancreática, coleções peripancreáticas e áreas de necrose (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33496779/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31685100/). A necrose pancreática em área superior a 50% é o achado de pior prognóstico na imagem e faz parte do escore de Balthazar. Veja mais em "Manejo de Pancreatite Aguda".
Calcificações pancreáticas indicam pancreatite crônica subjacente. O pâncreas “em salsicha” sugere etiologia autoimune. A dilatação da via biliar intra-hepática ou extra-hepática reforça a etiologia biliar (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31860051/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31685100/).
Diagnóstico e diagnóstico diferencial
O diagnóstico de pancreatite aguda é feito na presença de pelo menos 2 dos 3 critérios, segundo os critérios de Atlanta revisados em 2012 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23100216/):
- Dor abdominal compatível.
- Amilase ou lipase acima de 3 vezes o limite superior da normalidade (LSN).
- Achados de imagem compatíveis.
A elevação da lipase acima de três vezes o LSN não é absolutamente específica para pancreatite (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24888393/). Quando a dor é ausente/atípica, há confundidores (como doença crítica ou insuficiência renal) ou outro diagnóstico plausível, um exame de imagem pode ser necessário (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38857482/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31685100/). Em uma apresentação típica, com dor característica e lipase ou amilase acima de três vezes o LSN, a imagem geralmente não é necessária apenas para confirmar o diagnóstico (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32891214/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33496779/). Veja mais acima em ‘Exames laboratoriais’.
Uma regra clínica recentemente derivada e validada pode auxiliar na estimativa da probabilidade de pancreatite aguda a partir de dados clínicos e laboratoriais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38941094/) (tabela 3). A ferramenta deve ser interpretada como complementar e não substitui os critérios de Atlanta e nem define, isoladamente, a necessidade de exames de imagem ou a exclusão de diagnósticos alternativos. A probabilidade de pancreatite aguda pode ser estratificada em baixa (< 5 pontos), moderada (5 a 7 pontos) e alta (≥ 8 pontos) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40961312/). Sugere-se considerar diagnósticos diferenciais naqueles com probabilidade baixa ou moderada, e um exame de imagem pode auxiliar a caracterizar melhor o diagnóstico de pancreatite e pesquisar explicações alternativas. Em caso de probabilidade alta, o paciente poderia ser conduzido com a hipótese de pancreatite sem imagem inicial.
Diagnóstico de complicações
As complicações locais incluem necrose pancreática, coleções peripancreáticas, pseudocistos e necrose encapsulada (walled-off necrosis). Complicações à distância incluem as disfunções orgânicas associadas ao quadro, retinopatia pancreática e problemas associados à internação hospitalar e aos cuidados (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32891214/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38857482/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38991872/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27959604/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31507427/).
A gravidade do quadro é avaliada pelos critérios de Atlanta revisados (tabela 4). Veja mais em "Manejo de Pancreatite Aguda".
Complicações locais
A Classificação de Atlanta Revisada de 2012 organiza as coleções pancreáticas conforme a presença ou ausência de necrose e tempo de evolução (< 4 semanas ou ≥ 4 semanas), gerando quatro entidades distintas (fluxograma 1):
- Na pancreatite edematosa intersticial (sem necrose), coleções que surgem nas primeiras 4 semanas são chamadas de coleções peripancreáticas agudas (homogêneas, sem parede e tendem a se resolver espontaneamente). Se persistem além de 4 semanas e desenvolvem parede definida, passam a ser chamadas de pseudocistos, contendo líquido rico em amilase e sem debris sólidos.
- Na pancreatite necrosante, coleções nas primeiras 4 semanas são chamadas de coleções necróticas agudas (heterogêneas, com debris necróticos sólidos e sem parede definida). A distinção entre coleções peripancreáticas agudas (sem necrose) e coleções necróticas agudas pode ser difícil na primeira semana e se torna mais clara após esse período. Quando as coleções necróticas perduram e se encapsulam, geralmente após 4 semanas, passam a ser chamadas de necrose encapsulada (walled-off necrosis ou WON), heterogêneas com debris sólidos e parede bem definida.
A necrose pode ser parenquimatosa, peripancreática (gordura) ou mista (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32891214/). Em aproximadamente 50% dos pacientes com pancreatite necrosante, a necrose é exclusivamente extrapancreática, sem acometimento do parênquima, e pode ser confundida com coleção peripancreática aguda (sem necrose) na TC inicial.
Cerca de 30% dos pacientes com necrose pancreática desenvolvem infecção secundária, tipicamente após 7 a 10 dias de evolução (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41808660/). A suspeita se dá por febre persistente, piora clínica após melhora inicial, bacteremia ou elevação de marcadores inflamatórios. A TC com contraste pode revelar gás dentro da coleção, achado altamente específico para infecção, mas presente em apenas cerca de metade dos casos. Os dados clínico-radiológicos embasam o diagnóstico operacional de necrose infectada. A punção com agulha fina (PAAF) tem taxa de falso-negativo de aproximadamente 25% e risco de contaminação iatrogênica, sendo reservada para situações em que o resultado tenha potencial para modificar o tratamento antimicrobiano ou intervencionista (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36383374/). Culturas de coleções infectadas mostram predominância de gram-negativos entéricos, como Escherichia coli e Klebsiella sp.
Outras complicações locais incluem trombose venosa esplâncnica (veia esplênica e veia porta), pseudoaneurismas de vasos pancreáticos e síndrome compartimental abdominal, quadros mais associados à pancreatite grave (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31507427/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32891214/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32891214/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38857482/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32891214/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38857482/).
Complicações à distância
Pacientes que ficam em jejum por longos períodos têm maior risco de encefalopatia de Wernicke por síndrome de realimentação, tornando a reposição de tiamina necessária na suspeita (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16830380/). Esse quadro ocorre na fase de recuperação e deve ser diferenciado da encefalopatia pancreática, que é mais precoce. Veja mais em "Síndrome de Realimentação: Diagnóstico e Manejo".
Pacientes com queixas oftalmológicas como perda visual ou borramento (principalmente central) na fase aguda da doença devem ser investigados para retinopatia de Purtscher ou Purtscher-like (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24362324/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11142585/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39240905/). Essa é uma complicação rara causada por leucoembolização das arteríolas retinianas mediada por ativação do complemento. Trauma é a causa mais comum, seguida de lúpus eritematoso sistêmico e pancreatite aguda.
Investigação etiológica
A etiologia mais comum de pancreatite aguda é biliar, com aproximadamente 40% dos casos a depender da série (tabela 5). Em seguida estão as etiologias alcoólica (21%), idiopática (18%) e relacionada à hipertrigliceridemia (até 5%) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30249509/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29409760/).
A investigação etiológica inicial inclui (fluxograma 2) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42216617/):
- Provas hepáticas (AST, ALT, bilirrubinas, fosfatase alcalina e gama-GT).
- Triglicerídeos.
- Cálcio.
- Hemograma, PCR e função renal (prognóstico e rastreio de disfunção orgânica).
- USG de abdome.
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Pancreatite alcoólica e por hipertrigliceridemia têm maior chance de recorrência (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33087766/). Os níveis de triglicerídeos associados à pancreatite costumam estar acima de 1.000 mg/dL. Gestantes têm risco aumentado para essa etiologia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41444050/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30148167/).
Se a etiologia não for definida após os exames iniciais, recomenda-se repetir o USG e/ou realizar métodos avançados, como colangiorressonância (colangio-RM) ou ecoendoscopia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42216617/). Para detectar cálculos na vesícula, o USG tem sensibilidade de até 87%. Contudo, para coledocolitíase, a sensibilidade é de apenas 27 a 50%. Repetir o USG após a recuperação da pancreatite eleva a acurácia diagnóstica. Em caso de USG negativo, deve-se prosseguir com ecoendoscopia ou colangio-RM (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25469022/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25003222/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22592743/).
A American Gastroenterological Association recomenda realizar a ecoendoscopia 2 a 6 semanas após a resolução da pancreatite, pois alterações inflamatórias podem prejudicar a avaliação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36008176/). Microlitíase é definida por cálculos ≤ 5 mm com sombra acústica. Já a lama biliar é um material hiperecogênico sem sombra acústica ao USG. Juntas, podem responder por até 67% dos casos inicialmente classificados como idiopáticos. A ecoendoscopia é o método preferencial após exames anteriores negativos e a colangio-RM é a alternativa quando ela não está disponível. Sem tratamento, o risco de recorrência da pancreatite biliar chega a 33% (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37072178/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38696426/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26583660/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1734248/).
A pancreatite por hipercalcemia é rara, respondendo por até 1,2% dos casos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40944062/). O risco aumenta com níveis de cálcio total acima de 12 mg/dL (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30207907/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33565797/). Outras causas devem ser descartadas antes de atribuir a doença à hipercalcemia.
Alguns medicamentos são mais associados à pancreatite, como azatioprina e mercaptopurina (classe 1, maior risco), bem como análogos da GLP1, inibidores da enzima conversora de angiotensina, metimazol, antipsicóticos típicos e ácido valpróico (classe 2) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37440319/). O diagnóstico de pancreatite medicamentosa deve ser considerado após a exclusão de outras causas mais comuns, e a suspensão ou troca do medicamento suspeito deve ser realizada durante a fase aguda.
Causas genéticas são raras e a suspeita se dá em pancreatites recorrentes sem causa estabelecida, pacientes jovens ou com história familiar. A testagem genética é recomendada em pacientes com menos de 35 anos após o segundo episódio de pancreatite sem causa clara identificada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12120217/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17533082/).