Edição #170
Como Manejar Exacerbação de Asma: GINA 2026
As exacerbações de asma são responsáveis por cerca de 2 mil mortes por ano no Brasil e 460 mil no mundo [1,2]. Este tópico aborda a exacerbação de asma com base nas atualizações da diretriz internacional de asma da Global Initiative for Asthma (GINA) de 2026 [3]. Outros aspectos da asma já foram discutidos no guia: "Asma", "Atualização de Asma: GINA 2024" e "Atualização de Asma: GINA 2025".
Definições e avaliação inicial
A exacerbação de asma é caracterizada pela piora progressiva dos sintomas (dispneia, sibilância, tosse ou opressão torácica) e da função pulmonar do paciente [3]. Se desenvolve ao longo de horas a dias, seja em pacientes com diagnóstico de asma ou como primeira manifestação da doença [3-6]. Em pacientes com asma prévia, a piora clínica se diferencia da flutuação habitual dos sintomas e requer modificação no tratamento [3,4].
A piora da função pulmonar é definida pela redução do pico de fluxo expiratório (PFE) no medidor de fluxo expiratório ou do VEF1 na espirometria, em comparação com valores prévios do paciente. Quando valores basais estiverem indisponíveis, deve-se utilizar valores preditos com base em altura, idade e gênero [3,7]. A redução do PFE também é útil para reconhecimento da exacerbação de asma em pacientes com má percepção de sintomas, para os quais deve-se considerar monitoramento rotineiro do PFE [3,8].
As exacerbações podem ser desencadeadas por infecções virais, má adesão ao tratamento ou contato com alérgenos (tabela 1), mas também ocorrem sem gatilhos identificáveis [3,5]. São mais comuns em pacientes com fatores de risco, como exacerbação no último ano e asma não controlada (tabela 2) [3,9,10].
Avaliação inicial
A avaliação de pacientes com suspeita de exacerbação de asma inclui história clínica, exame físico, oximetria de pulso e avaliação de função pulmonar (em geral com PFE) (tabela 3). Os objetivos da avaliação inicial são [3]:
- Estabelecer o diagnóstico, com base em piora dos sintomas e da função pulmonar.
- Suspeitar de diagnósticos diferenciais, como insuficiência cardíaca, tromboembolismo pulmonar e obstrução de vias aéreas superiores.
- Suspeitar de condições associadas, como anafilaxia, pneumonia, atelectasia, pneumotórax e pneumomediastino.
- Identificar sinais de alarme para exacerbações fatais ou quase fatais (ventilação mecânica ou internação em UTI), descritos na tabela 2. Pacientes com esses sinais devem ser reavaliados com maior frequência pelo risco de deterioração clínica e devem ser orientados a buscar atendimento médico precocemente em caso de novas exacerbações [3,11,12].
- Caracterizar a gravidade da exacerbação (leve, moderada, grave ou ameaçadora à vida), que direciona o tratamento, conforme fluxograma 1. A proposição de diferentes tratamentos para exacerbações leves e moderadas é uma novidade do GINA 2026 [3].
A medida da função pulmonar é fortemente recomendada pelo GINA para diagnóstico e avaliação de gravidade (fluxograma 1). Deve ser realizada antes do início do tratamento, após 1 hora e depois periodicamente até estabilização do quadro [3].
Radiografia de tórax e gasometria arterial não são recomendados rotineiramente, mas podem ser considerados se houver ausência de resposta ao tratamento inicial ou deterioração clínica. A radiografia também é indicada na suspeita de diagnósticos diferenciais [3].
O GINA recomenda que pacientes com exacerbações graves ou ameaçadoras à vida sejam tratados no departamento de emergência, enquanto pacientes com exacerbações leves ou moderadas podem ser tratados na atenção primária caso haja disponibilidade de recursos e equipe clínica com experiência para o manejo [3].
Tratamento inicial: medidas inalatórias
Beta agonista de curta ação (SABA)
Os SABA são recomendados para todas as exacerbações de asma. O salbutamol (Aerolin®) é o SABA mais utilizado, com doses iniciais na primeira hora de atendimento variando conforme a gravidade (fluxograma 1) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/):
- Leve: 4 jatos de 100 mcg, repetindo uma vez em 30-60 minutos se persistência de sintomas
- Moderada: 4-6 jatos, repetindo até 3 vezes a cada 20-30 minutos, ou 2,5 mg por nebulização (10 gotas ou 0,5 ml da solução de 5 mg/ml)
- Grave: 6-10 jatos, repetindo até 3 vezes a cada 20-30 minutos, ou 5 mg por nebulização (20 gotas ou 1 ml da solução de 5 mg/ml)
A diretriz favorece o uso do SABA por inalador pressurizado de dose medida (pMDI ou “bombinhas”) acoplado ao espaçador. A nebulização é uma opção para exacerbações moderadas a graves, mas há preferência pelo pMDI quando o paciente conseguir utilizar o dispositivo. O motivo é a maior custo-efetividade, redução do tempo de internação e redução da dose de SABA em comparação com outros dispositivos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24037768/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11948030/). Além disso, o risco potencial de transmissão de infecções associado ao uso de nebulizadores é evitado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/).
O inalador deve ser agitado antes de cada uso. Cada jato deve ser realizado separadamente utilizando técnica de tidal breathing (múltiplas inspirações) ou de inspiração única com retenção de ar por 10 segundos. Alguns espaçadores necessitam de lavagem com detergente previamente ao uso. Um vídeo com orientações sobre o uso de inaladores com espaçadores está disponível no link.
As doses de SABA recomendadas pelo GINA 2026 são menores do que as previamente recomendadas pela preocupação com sobre-tratamento e toxicidade associada ao SABA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40582369/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24532877/). A toxicidade deve ser suspeitada em pacientes que utilizaram altas doses de SABA e se caracteriza por taquicardia, palpitações, ansiedade e hiperventilação. Também pode cursar com hipocalemia, arritmias e acidose láctica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24532877/).
A diretriz não recomenda o uso do fenoterol (Berotec®), associado a aumento de mortalidade em estudos observacionais antigos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2330548/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2565417/).
Corticoide inalatório (CI) e formoterol
O GINA 2026 adicionou o CI-formoterol como alternativa ao SABA no tratamento da exacerbação leve de asma em ambientes assistenciais (fluxograma 1) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40582369/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39629659/). Deve-se administrar 2 jatos de formoterol-budesonida 6/200mcg, que podem ser repetidos em 30 a 60 minutos se necessário. Doses adicionais podem ser utilizadas com base em sintomas e função pulmonar até dose máxima diária de 72 mcg de formoterol (12 jatos), incluindo dose de manutenção (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29554195/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/).
O formoterol-budesonida é disponibilizado como dispositivo de cápsulas com pó para inalação (DPI). O modo de usar o dispositivo é ilustrado no vídeo do link.
A diretriz não menciona o CI-formoterol no tratamento em exacerbações moderadas a graves, argumentando insuficiência de evidências contemplando essa população (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/). Há revisão sistemática que favorece a associação de CI ao tratamento padrão da exacerbação de asma (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31521830/). Da mesma forma, há evidência de eficácia e segurança do formoterol como alternativa ao SABA (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20377114/). Contudo, a combinação CI-formoterol permanece pouco estudada, especialmente em pacientes com exacerbações graves. O principal ensaio clínico contemplando essa população é pequeno (107 pacientes) e comparou altas doses de budesonida-formoterol e SABA, sem diferença de eficácia (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16009588/).
Ipratrópio (Atrovent®)
O ipratrópio é indicado para exacerbações moderadas a graves (fluxograma 1). Uma revisão sistemática da Cochrane encontrou que a associação de SABA e ipratrópio reduz hospitalizações e efeitos adversos em comparação ao SABA isolado (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32767571/).
O GINA recomenda 4 jatos de 20 mcg de ipratrópio por pMDI com espaçador ou 0,25 mg por nebulização (1ml ou 20 gotas da solução de 0,25mg/ml) junto com o SABA, a cada 20-30 minutos, por até três vezes nas primeiras horas. Não há recomendação de uso do ipratrópio após as 1-2 horas iniciais (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/).
Tratamento inicial: medidas sistêmicas e suporte ventilatório
Corticoide sistêmico
O corticoide sistêmico é indicado nas exacerbações moderadas a graves, especialmente se falha ao tratamento inicial, deterioração clínica ou uso prévio de corticoide sistêmico. A diretriz recomenda iniciar em até 1 hora após a admissão. O efeito da droga é esperado após 4 horas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/).
A dose usual recomendada é de 40 a 50mg de prednisona ou prednisolona por 5 a 7 dias. A administração oral é tão eficaz quanto a intravenosa ou intramuscular, além de mais rápida e menos invasiva. A hidrocortisona 200 mg/dia intravenosa é recomendada para pacientes com dispneia grave com deglutição comprometida, vômitos ou indicação de ventilação mecânica. Não há benefício em prolongar o tempo de uso ou realizar desmame (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11030202/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12418594/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8094111/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3318751/).
Efeitos adversos comuns do ciclo curto de corticoides sistêmicos incluem insônia, aumento de apetite, refluxo e mudanças de humor. Também há aumento do risco de infecção, tromboembolismo venoso e fraturas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28404617/). Já o uso cumulativo de quatro cursos de corticoide oral durante a vida está associado a maior risco de osteoporose, diabetes, doenças cardiovasculares e catarata, embora com um tamanho de efeito pequeno (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30214247/). O GINA 2026 enfatiza o uso responsável de corticoide sistêmico, ressaltando o tratamento da manutenção adequado da asma para minimizar exacerbações (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/).
Outras medicações
Outras medicações sistêmicas são mencionadas pelo GINA 2026 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/):
- Adrenalina: administrar imediatamente por via intramuscular ou intranasal na suspeita de anafilaxia. Não é indicada rotineiramente na asma sem anafilaxia. Veja mais em "Diretrizes de Anafilaxia: Diagnóstico e Manejo".
- Sulfato de magnésio: considerar em pacientes com exacerbações graves ou ameaçadoras à vida, quando houver falha ao tratamento inicial e hipoxemia persistente, objetivando redução do risco de admissão hospitalar e melhora da função pulmonar. Recomenda-se 2 gramas por via intravenosa em 20 minutos, idealmente em leito monitorizado. Os efeitos adversos mais comuns são rubor, cefaleia e hipotensão (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24865567/).
- Antibióticos: indicar apenas em caso de pneumonia associada (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29938789/).
- Aminofilina e teofilina: não utilizar, por ausência de benefício e maior risco de efeitos adversos, incluindo arritmias (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23235591/).
- Sedativos: não utilizar, por risco de depressão respiratória e aumento de mortalidade (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8555932/).
- Terapia com hélio misturado ao oxigênio (heliox): considerar em pacientes com exacerbações graves e falha ao tratamento, baseado em uma revisão sistemática que sugere melhora do PFE e redução do risco de hospitalização (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24331390/). Disponibilidade, custos e experiência com o tratamento devem ser levados em consideração.
Suporte ventilatório
A diretriz indica oxigênio suplementar com alvo de saturação periférica de oxigênio (SpO2) 92-95% na oximetria de pulso (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14555560/). A gasometria arterial deve ser considerada em pacientes com PFE <50% do predito, falha ao tratamento ou deterioração clínica (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35639368/)
O GINA não traz recomendações quanto ao uso da ventilação não invasiva (VNI) na exacerbação da asma considerando a baixa qualidade da evidência (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39642363/). Caso seja utilizada, os pacientes devem ser monitorados com cautela e não devem receber sedativos. A VNI não deve atrasar intubação orotraqueal caso haja indicação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/). Veja mais sobre suporte ventilatório em "Dispneia no Pronto-Socorro".
Reavaliação e seguimento
Os pacientes devem ser reavaliados em até 1 hora das medidas iniciais com exame clínico e função pulmonar. Uma das atualizações do GINA de 2026 foi a inclusão do fluxograma de atendimento após a reavaliação e o maior foco nos planos de ação pós alta (fluxograma 2) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/).
Pacientes que apresentem melhora parcial ou piora clínica devem ser avaliados para diagnósticos diferenciais e receber novos cursos de SABA. O GINA de 2026 recomenda titulação de dose conforme resposta clínica e PFE, sem sugestão de valores específicos, enquanto o GINA de 2025 recomendava 4 a 10 jatos a cada 1 a 4 horas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40582369/). O ipratrópio deve ser mantido até total de 3 doses de 20 mcg nas primeiras 2 horas para pacientes com exacerbações moderadas a graves. Sulfato de magnésio deve ser considerado para pacientes com exacerbações graves (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/).
A diretriz sugere internação em UTI para pacientes com exacerbações graves e piora clínica. A internação em enfermaria deve ser considerada nos seguintes casos (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/):
- Sem melhora dos sintomas
- SpO2 < 92% em ar ambiente
- Necessidade de SABA a cada 1-2h
- Dispneia persistindo por mais de 4-6 horas do início do corticoide sistêmico
- Suspeita de má adesão
- Sinais de alerta para morte por asma (tabela 2)
Pacientes com melhora clínica e recuperação da função pulmonar (PFE > 60-80 % dos valores basais ou preditos) não devem receber doses adicionais de broncodilatador após a primeira hora. Os pacientes podem receber alta se mantiveram melhora clínica sustentada por 1-2 horas após última dose de broncodilatador, desde que apresentem SpO2 ≥ 92% e bom suporte domiciliar (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/).
Planejamento de alta e plano de ação para controle de asma
Todos os pacientes devem receber tratamento de manutenção com CI na alta hospitalar (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/). O esquema preferencial visando redução de exacerbações futuras é com CI-formoterol de manutenção e resgate (MART), no step 4 de tratamento (dose moderada de manutenção) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34282031/). Os resgates devem ser realizados com 1 jato de CI-formoterol em dose baixa, até a dose máxima diária de formoterol de 72 mcg. Aqueles que já estavam no step 5 devem manter tratamento prévio. Veja mais informações sobre steps no tópico "Atualização de Asma: GINA 2025".
Para pacientes recebendo vias alternativas de tratamento de asma (CI isolado de manutenção ou CI-LABA diferente de formoterol), a diretriz sugere modificar tratamento para CI-formoterol. Em caso de impossibilidade, há duas opções (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/):
- Para pacientes utilizando resgate com SABA: aumentar a dose de CI de manutenção (em até 4 vezes) por 2-4 semanas e realizar resgates com 2 jatos de SABA a cada 4-6 horas.
- Para pacientes utilizando resgate com CI-SABA: manter a dose de CI prévio e realizar resgates com 2 jatos de CI-SABA.
Outras medidas recomendadas na alta hospitalar são (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/):
- Reforçar a adesão medicamentosa.
- Checar técnica inalatória.
- Corrigir fatores de risco e gatilhos para exacerbações (tabelas 1 e 2).
- Agendar reavaliação em 2-7 dias.
- Encaminhar para pneumologista em caso de internação em UTI ou se houver história de outra exacerbação com necessidade de corticoide sistêmico no último ano.
- Orientar busca por atendimento médico se forem necessárias mais do que 12 inalações em 24 horas.
- Fornecer plano de ação para controle de asma.
Plano de ação
O plano de ação contém instruções de reconhecimento e auto-manejo de exacerbações da asma, garantindo maior autonomia ao paciente, melhor controle da doença e menos busca por pronto-atendimento (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28302126/). Inclui orientações sobre ajuste de medicações inalatórias e indicação de corticoide oral (tabela 4) e sinais de alarme para buscar o serviço de saúde. Um modelo de plano de ação proposto pelo Ministério da Saúde está disponível no site.
Pacientes devem ser orientados a buscar atendimento médico caso não haja melhora apesar das medidas do plano de ação. Em caso de exacerbação auto-manejada, devem ser reavaliados por médico assistente em 1 a 2 semanas (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42225113/).