Edição #175

Tratamento de Insuficiência Cardíaca de Fração de Ejeção Preservada: Consenso ACC 2026

Criado em: 07 de Setembro de 2026 Autor: Jessica Nicolau Revisor: Marcela Belleza

Em julho de 2026, o American College of Cardiology (ACC) publicou um novo consenso sobre o manejo da insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada (ICFEp) [1]. O documento atualiza a versão de 2023, já abordada pelo Guia TdC em "Diretriz Americana de Insuficiência Cardíaca de Fração de Ejeção Preservada". As novidades da publicação incluem evidências recentes sobre o uso de ISGLT2, antagonistas dos mineralocorticoides não esteroidais e terapias incretínicas na ICFEp. Desta forma, a ICFEp passa a ter uma estratégia farmacológica estruturada, que será abordada neste tópico. 

Diagnóstico de ICFEp

A insuficiência cardíaca (IC) é a síndrome clínica em que sinais e sintomas decorrem de anormalidades estruturais ou funcionais do coração. De acordo com a segunda definição universal, o diagnóstico de IC deve ser baseado no conjunto de achados da avaliação clínica, laboratorial e de imagem. O aumento de peptídeos natriuréticos e a demonstração de congestão pulmonar ou sistêmica em exames de imagem aumentam a certeza diagnóstica [2]. 

Apesar dos critérios definidos para IC, o diagnóstico de ICFEp é desafiador, pois nenhum exame isolado é suficiente para firmar o diagnóstico. O ecocardiograma não fornece achados patognomônicos e, por vezes, os peptídeos natriuréticos podem estar normais, especialmente em pacientes com obesidade [3]. A investigação das manifestações clínicas deve incluir a pesquisa de diagnósticos diferenciais, como pneumopatias, anemia e outras causas de sobrecarga volêmica. O uso de sistemas de pontuação para avaliar a probabilidade de ICFEp é recomendado, como os escores H2FPEF e o HFA-PEFF (tabela 1). Veja mais em "Insuficiência Cardíaca: Diagnóstico". 

Tabela 1
Escores diagnósticos para ICFEp.
Escores diagnósticos para ICFEp.

Existem condições que podem mimetizar ICFEp devido à sobreposição de sintomas, achados hemodinâmicos e de imagem. Os mimetizadores podem ser não cardíacos, como obesidade, doença pulmonar, renal e hepática, ou cardíacos, como cardiomiopatia hipertrófica, doença infiltrativa ou valvar. Esses são cenários de fisiopatologia e tratamento distintos, não contemplados nesse tópico [1]. 

A despeito dos avanços terapêuticos, a insuficiência cardíaca (IC) permanece uma das principais causas de morbimortalidade no mundo [4].Em países como os Estados Unidos, a incidência de ICFEp continua a aumentar e corresponde a mais de 50% dos casos de IC. Os desfechos da ICFEp são comparáveis aos da insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida (ICFEr) [5,6]. 

Antes da avaliação terapêutica, o documento endossa que é importante para profissionais de saúde [1]:

  • Identificar indivíduos com possível ICFEp com base em sintomas e sinais característicos
  • Investigar condições não cardíacas e cardíacas que mimetizam ICFEp, como parte de diagnóstico diferencial abrangente e por vezes com terapia distinta
  • Implementar plano de manejo de ICFEp com foco na terapia farmacológica e não farmacológica otimizada, estratificação de risco e manejo de comorbidades que inclua medidas não farmacológicas, tratamento de comorbidades e terapia farmacológica otimizada.

Terapia farmacológica otimizada: iSGLT2 e antagonistas dos receptores mineralocorticoides

A terapia farmacológica otimizada na ICFEp pode melhorar os sintomas e reduzir o risco de hospitalizações por IC, com uso seguro e eficaz tanto no nível ambulatorial quanto no hospitalar. Até o momento, a terapia farmacológica não demonstrou redução consistente de mortalidade associada à ICFEp [1]. 

Os medicamentos recomendados como de primeira linha no manejo da ICFEp estão descritos na tabela 2. O documento da ACC e a diretriz de 2026 da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) consideram os inibidores do cotransportador sódio-glicose 2 (iSGLT2) e os antagonistas dos receptores mineralocorticoides (ARM) como terapia farmacológica básica na ICFEp (fluxograma 1) [7]. 

Tabela 2
Dose inicial e alvo do tratamento farmacológico da ICFEp.
Dose inicial e alvo do tratamento farmacológico da ICFEp.
Fluxograma 1
Terapia médica para ICFEp.
Terapia médica para ICFEp.

Inibidores do cotransportador sódio-glicose 2 (iSGLT2)

Os iSGLT2 desempenham papel central no tratamento da ICFEp, com evidências de redução de eventos relacionados à insuficiência cardíaca e de melhora de desfechos clínicos. Esses benefícios foram demonstrados em diferentes estudos, incluindo pacientes com e sem DM2.

  • No estudo EMPEROR-Preserved, foi analisado o uso de empagliflozina 10 mg/dia versus placebo, associado à terapia farmacológica usual, em pacientes com IC e FEVE acima de 40%, com ou sem diabetes tipo 2 (DM2) [8]. Os desfechos primários compostos foram a hospitalização por IC e a morte cardiovascular. Houve redução do desfecho primário composto, em decorrência de hospitalização por IC. Notou-se, ainda, redução do declínio da taxa de filtração glomerular e melhora da qualidade de vida, avaliada pelo questionário KCCQ. 
  • O trial DELIVER avaliou o uso de dapaglifozina 10 mg/dia versus placebo, associado à terapia farmacológica usual, também em pacientes com IC FEVE > 40%, independentemente do status de DM2 [9]. O desfecho primário também foi a hospitalização por IC e a morte cardiovascular. Houve redução do desfecho primário composto, porém, às custas de hospitalização por IC, sem diferença estatisticamente significativa no desfecho de mortalidade cardiovascular. O benefício ocorreu independentemente do subgrupo pré-especificado (FEVE < 60% ou > 60%) ou do estado de DM2. 
  • O trial PRESERVED-HF foi outro estudo que avaliou a dapaglifozina na ICFEp, porém com tamanho amostral menor e avaliação de desfechos de qualidade de vida [10]. Foram avaliados pacientes com FEVE > 45%, classe funcional de NYHA II a IV, com ou sem DM2. Após 12 semanas de tratamento com dapagliflozina, houve melhora significativa dos sintomas dos pacientes, avaliados pelo KCCQ, e melhora no desempenho no teste de caminhada de 6 minutos. 

O início precoce de iSGLT2 pode aumentar a adesão medicamentosa a longo prazo. A hospitalização por IC é um momento oportuno para implementar terapias [11]. A ESC recomenda que pacientes hospitalizados por IC iniciem terapia com iSGLT2 sempre que possível, visando à melhora da qualidade de vida e à minimização de hospitalizações por IC [7]. Veja mais em "Gliflozinas (inibidores da SGLT2)".

Antagonistas dos receptores mineralocorticoides (ARM)

Entre os ARM, a espironolactona e, mais recentemente, a finerenona, foram avaliadas em ensaios clínicos na ICFEp. 

A espironolactona é um ARM esteroidal não seletivo que melhora os parâmetros de função diastólica em pacientes com ICFEp [12,13]. A principal evidência para espironolactona na ICFEp vem do estudo TOPCAT, que avaliou seu uso em pacientes sintomáticos com FEVE superior a 45% [14]. A espironolactona não mostrou redução do desfecho primário combinado, que incluía morte cardiovascular, parada cardiorrespiratória revertida e hospitalização por IC, embora tenha sido observada redução significativa no desfecho secundário de hospitalização por IC. Além disso, houve maior risco de hipercalemia e piora da função renal, sem aumento de diálise.

A finerenona é um ARM não esteroidal com seletividade para o receptor mineralocorticoide, com efeitos adversos hormonais reduzidos e menor risco de hipercalemia. No FINEARTS-HF, um ensaio clínico que incluiu pacientes com FEVE acima de 40%, houve redução significativa do desfecho primário composto por morte cardiovascular e eventos de agravamento de IC, principalmente devido à redução dos eventos totais de piora de IC [15]. Veja mais em "Atualização sobre ICFEP e Finerenona: o estudo FINEARTS-HF". 

Desta forma, com base nas evidências descritas, a finerenona deve ser considerada a ARM de escolha em indivíduos com ICFEp. Em cenários em que o custo ou a tolerância foi limitante, a espironolactona pode ser utilizada como alternativa [1]. 

A eplerenona não foi estudada na ICFEp, não tendo aprovação do FDA (Food and Drug Administration), porém pode ser utilizada como uma alternativa em pacientes com intolerância à espironolactona por ginecomastia [1]. 

Terapia farmacológica adicional

Outras intervenções farmacológicas devem ser consideradas conforme o perfil clínico específico (presença de comorbidades, sintomas ou alterações da fração de ejeção do ventrículo esquerdo). Destacam-se: terapias baseadas em incretinas, inibidores de neprilisina e do receptor de angiotensina (INRA), bloqueadores dos receptores de angiotensina (BRA) e diuréticos.

Terapia baseada em incretinas

A semaglutida é um agonista do receptor de GLP-1 e a tirzepatida é um agonista duplo dos receptores de GLP-1 e de polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP). A semaglutida e a tirzepatida foram avaliadas na ICFEp sintomática e com índice de massa corporal (IMC) acima de 30 kg/m² nos estudos STEP-HFpEF e no SUMMIT, respectivamente [16,17]. Veja mais em "Semaglutida para Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Preservada" e "Tirzepatida para Insuficiência Cardíaca de Fração de Ejeção Preservada em Pessoas com Obesidade".

Tanto a semaglutida quanto a tirzepatida estiveram associadas à perda de peso substancial em 1 ano (13,3% no STEP-HFpEF e 11,6% no SUMMIT) e à melhora da classe funcional de NYHA [16]. Assim, as evidências atuais sugerem que, na presença de IMC acima de 30 kg/m² e ICFEp (FEVE ≥ 45% com semaglutida ou ≥ 50% com tirzepatida), esses agentes estão associados à perda de peso segura e eficaz, além de melhora dos sintomas e da capacidade funcional da IC [18]. 

Inibidor de neprilisina e do receptor de angiotensina (INRA)

O uso de sacubitril-valsartana na ICFEp foi avaliado no estudo PARAGON-HF, no qual foi comparado à valsartana quanto ao desfecho primário composto por morte cardiovascular e hospitalizações por IC [19]. O desfecho foi numericamente menor com sacubitril-valsartana, porém sem significância estatística. Na análise de subgrupo, sacubitril-valsartana associou-se a um benefício clínico em pacientes com FEVE inferior a 57% e em mulheres, podendo ser um perfil de uso de medicação na ICFEp, principalmente se for necessário controle adicional da pressão arterial [1]. 

Bloqueadores dos Receptores de Angiotensina II (BRA)

O estudo CHARM-PRESERVED [20] detectou uma redução das hospitalizações por IC com a candesartana. Esse mesmo benefício não foi observado com outra medicação da mesma classe, a irbesartana, no estudo I-PRESERVE [21]. 

Assim, os BRA (especialmente a candesartana) possuem efeito mais modesto no risco de hospitalizações por IC, podendo ser considerados quando os INRA forem contraindicados ou forem inacessíveis [1]. 

Os inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) não mostraram benefício com perindopril no estudo PEP-CHF, avaliado em população com mais de 70 anos [22]. 

Outras terapias: diuréticos e betabloqueadores

Os diuréticos de alça devem ser utilizados com cautela, com foco no alívio da congestão e de sintomas [23]. Os tiazídicos, como a hidroclorotiazida, e os inibidores da anidrase carbônica, como a acetazolamida, podem ser utilizados como adjuvantes em cenário de IC descompensada, para bloqueio sequencial do néfron [24,25]. 

Ao contrário da ICFEr, não há benefício estabelecido para o uso de betabloqueadores na ICFEp, o que pode levar à intolerância ao esforço decorrente de incompetência cronotrópica [26]. O uso deve ser restrito a situações específicas, como o manejo da angina e o controle da frequência cardíaca em contexto de arritmia, como a fibrilação atrial [27]. 

Manejo de comorbidades

O conceito de ICFEp evoluiu para uma síndrome sistêmica, complexa, que é impulsionada por adiposidade visceral, adipocinas inflamatórias e disfunção metabólica [28]. Foi introduzido o conceito de síndrome cardiovascular-renal-metabólica (CKM), uma síndrome caracterizada pelo agrupamento de resistência insulínica, diabetes, doença renal crônica, obesidade e doença cardiovascular, sendo relevante para o manejo de ICFEp, devido à prevalência desta síndrome [29]. Na ICFEp, a carga cumulativa e a gravidade das comorbidades CKM estão diretamente associadas a desfechos clínicos graves [30]. O manejo das comorbidades da síndrome CKM na ICFEp é apresentado no fluxograma 2. 

Fluxograma 2
Manejo de comorbidades da síndrome cardio-renal-metabólica na ICFEp.
Manejo de comorbidades da síndrome cardio-renal-metabólica na ICFEp.

Fibrilação atrial (FA) 

A FA afeta cerca de 40% dos pacientes com ICFEp e indivíduos com essa arritmia apresentam sintomas mais graves, mais disfunção cardíaca, risco aumentado de hospitalização e morte do que aqueles em ritmo sinusal [31,32].

O manejo de FA nessa população deve seguir as diretrizes de FA, como as da American Heart Association (AHA) de 2023 [33]. O controle de frequência é um fator importante para a melhora dos sintomas, porém, com parcimônia, pois uma redução agressiva pode piorar a capacidade de exercício devido à incompetência cronotrópica [34]. 

O controle de ritmo, principalmente por meio de ablação por cateter, está associado a uma menor taxa de mortalidade e a menos eventos cardiovasculares e de IC, em comparação com a estratégia de controle de frequência [35,36]. O consenso do ACC 2026 considera que essa estratégia é focada em pacientes com sintomas limitantes relacionados à FA [1]. Veja mais em  "Fibrilação Atrial".

Doença coronária aterosclerótica (DAC)

A prevalência de DAC em pacientes com ICFEp chega a 50% dos casos e, quando considerada a disfunção coronariana microvascular, ultrapassa 90% [37]. A disfunção microvascular leva à alteração da perfusão miocárdica, à intolerância ao exercício e ao aumento das pressões de enchimento nos pacientes com ICFEp [38]. A presença de DAC concomitante à ICFEp está associada a um aumento da mortalidade, remodelamento cardíaco e evolução para ICFEr [39]. 

O manejo de DAC nesses pacientes segue o fluxograma orientado pelas diretrizes. O foco na prevenção secundária com estatina de alta intensidade, antiplaquetários e controle da pressão arterial é fundamental para o cuidado [40]. Alguns estudos observacionais sugerem que a revascularização na ICFEp está associada à preservação da função cardíaca e à melhora da sobrevida, porém sem ensaio clínico randomizado para confirmar tais achados [39]. Veja mais em "Diretriz de Doença Coronariana Crônica da AHA 2023".

Demais comorbidades

O controle pressórico é essencial na ICFEp, com pressão arterial sistólica (PAS) ideal em faixa mais estreita. Dados combinados de estudos mostraram que PAS ≥ 140 mmHg e < 120 mmHg estavam associados a aumento de hospitalização por IC ou morte cardiovascular, e menor risco com valores de PAS de 120 a 129 mmHg nos pacientes com ICFEp [41]. A Sociedade Brasileira de Cardiologia apresenta uma recomendação fraca para metas de PA < 130/80 mmHg, com baixa certeza de evidência [42]. 

Pacientes com hipertensão arterial (HAS) e ICFEp, INRA ou BRAs podem representar uma melhor opção anti-hipertensiva, dado o benefício descrito na redução de hospitalizações por IC [19,20].

Os pacientes com doença renal crônica (DRC) e ICFEp apresentam maior hipervolemia, níveis mais elevados de peptídeos natriuréticos e pior classe funcional [43]. A DRC é também um fator que aumenta o risco de morte e de eventos de piora de IC [44]. O manejo da DRC baseia-se no documento da KDIGO de 2024), focando no uso de IECA/BRA, ISGLT2, ARM e agonistas dos receptores de GLP-1, que atuam também na ICFEp. Veja mais em "Doença Renal Crônica: KDIGO 2024".

Pacientes com ICFEp e diabetes mellitus tipo 2 (DM2) apresentam piores desfechos clínicos [45]. O manejo da DM2 deve seguir a atualização de 2026 da American Diabetes Association, com preferência para uso de anti-diabéticos que possuem benefícios na IC, como ISGLT2 e agonistas dos receptores de GLP-1 [8,9,46,47]. A ACC recomenda evitar inibidores de DPP-4 e tiazolidinedionas na ICFEp, devido ao maior risco de eventos de IC [1,23,48-50]. Veja mais em "Diabetes Mellitus: Atualização da ADA de 2026".

Dispositivos e outras intervenções

Dispositivos de monitorização de pressão de artéria pulmonar

O uso de monitores implantáveis de artéria pulmonar, como o CardioMEMS HF (Abbott), permite fornecer informações em tempo real sobre parâmetros hemodinâmicos, podendo ser um indicador de piora da IC e permitir ajustes precoces [51]. No estudo CHAMPION, foi demonstrada redução de hospitalizações por IC [52]. O estudo GUIDE-HF, por outro lado, não demonstrou redução do desfecho composto (morte cardiovascular e eventos totais de IC), mas os resultados podem ter tido impacto da pandemia de COVID-19 [53]. No estudo MONITOR-HF, que tinha 28% dos pacientes com FEVE reduzida, observou-se melhora da qualidade de vida e redução de hospitalizações por IC com o uso do dispositivo [54]. 

O sensor Cordella foi avaliado no estudo PROACTIVE-HF, em pacientes com IC NYHA III, com hospitalização recente por IC e níveis elevados de peptídeos natriuréticos, mostrando uma taxa de eventos de morte cardiovascular ou hospitalização por IC de 0,15 a cada 6 meses [55]. 

Assim, o uso de monitoramento hemodinâmico pode ser útil em pacientes com ICFEp que [1]:

  • Apresentam pelo menos 1 internação por IC e persistem com classe funcional NYHA III a despeito de terapia médica otimizada;
  • Apresentam estado volêmico instável a despeito de seguimento ambulatorial rigoroso e próximo;
  • Apresentam síndrome cardiorrenal;
  • Apresentam comorbidades como obesidade e doença pulmonar crônica, que dificultam a diferenciação da etiologia da dispneia.

Outros dispositivos em avaliação

Outros dispositivos para ICFEp, como ablação do nervo esplâncnico, dispositivos de derivação interatrial e marcapasso, estão sob avaliação, porém ainda com benefícios incertos e sem indicação rotineira [56-58].

Edição #175

Sedação e Analgesia para Procedimento: Como Fazer

Criado em: 07 de Setembro de 2026 Autor: Revisor: Frederico Amorim Marcelino

Sedação e analgesia para procedimentos são estratégias utilizadas para reduzir ansiedade, dor e desconforto durante os procedimentos. A profundidade da sedação varia de mínima a profunda e pode ultrapassar o nível planejado [1]. Este tópico revisa a avaliação antes da sedação, escolha dos medicamentos, monitorização e manejo das principais complicações.

Este tópico apresenta um checklist para acesso rápido de sedação para procedimento, acesse aqui.

Conceitos, indicações e profundidade de sedação

Sedação e analgesia devem ser consideradas em todo procedimento que cause ansiedade ou dor. Os principais objetivos da sedação para procedimento são [1]:

  • Analgesia: redução da dor provocada pelo procedimento.
  • Sedação: pode ser dividida em quatro níveis de profundidade, da sedação mínima, também chamada de ansiólise, até anestesia geral (tabela 1).
  • Amnésia: redução da formação ou recordação de memórias, principalmente amnésia anterógrada.
  • Sedação dissociativa: caracterizado por profunda analgesia, sedação, amnésia e imobilização, com preservação dos reflexos protetores das vias aéreas, da respiração espontânea e da estabilidade cardiopulmonar. É considerado um estado distinto dos quatro níveis de profundidade da sedação e ocorre pelo uso da cetamina como indutor.
Tabela 1
Contínuo de profundidade de sedação.
Contínuo de profundidade de sedação.

Durante a avaliação da profundidade da sedação, o termo resposta proposital se refere a uma resposta motora ao estímulo verbal ou doloroso. Contudo, a retirada reflexa de um membro após estímulo doloroso não deve ser interpretada como resposta proposital. A ausência de resposta proposital mesmo após estímulo doloroso corresponde a anestesia geral [2]. 

Alguns pacientes podem apresentar maior profundidade de sedação do que o planejado após a infusão de medicamentos. A equipe deve estar preparada para reconhecer esse cenário e ser capaz de manter via aérea, ventilação e circulação até que o efeito dos medicamentos diminua [2]. 

Entre os procedimentos que mais frequentemente necessitam de sedação estão a redução de fraturas e luxações, a cardioversão elétrica, a endoscopia digestiva alta e a colonoscopia [3,4]. Drenagem de abscessos, desbridamentos, procedimentos ginecológicos e intervenções radiológicas também podem exigir sedação, conforme a intensidade da dor e a necessidade de imobilidade. Anestesia local, bloqueios regionais e lidocaína intra-articular podem reduzir ou eliminar a necessidade de sedação em procedimentos selecionados [1]. Para as indicações de sedativos nos casos de intubação de sequência rápida, veja mais em "Consenso de Via Aérea Fisiologicamente Difícil".

Antes de um procedimento de sedação, algumas etapas são recomendadas [1]: 

  • Avaliação clínica
  • Avaliação da via aérea
  • Checagem de jejum
  • Checagem de equipe e materiais
  • Termo de consentimento

Pré-sedação: avaliação clínica e da via aérea

Avaliação clínica

Idealmente, todos os pacientes devem passar por avaliação clínica antes da sedação [1]. Uma das etapas da avaliação clínica é o estado físico pela classificação da American Society of Anesthesiologists (ASA). Pacientes classificados como ASA III ou maior, apresentam doença sistêmica importante e maior risco de complicações durante a sedação.

A avaliação também deve registrar a indicação e a urgência do procedimento, a profundidade pretendida, as comorbidades, medicamentos em uso, alergias, consumo recente de álcool ou outras substâncias e a possibilidade de gestação [1]. Também devem ser questionadas experiências anteriores com anestesia ou sedação, incluindo náuseas, dificuldade de ventilação, intubação difícil ou reações adversas.

Complicações respiratórias (hipoxemia e apneia) são os eventos adversos mais comuns. Fatores associados a maior risco de eventos adversos incluem idade avançada, fragilidade, obesidade, síndrome da apneia e hipopneia obstrutiva do sono (SAHOS), doença pulmonar ou cardiovascular, estado físico ASA III ou maior, sedação profunda, procedimentos prolongados e combinação de opioides com benzodiazepínicos ou outros sedativos [5-8].

Avaliação da via aérea

A avaliação de via aérea difícil e de ventilação difícil com bolsa-válvula-máscara (BVM) deve ser feita em todos os pacientes que serão sedados [1]. Se houver hipoventilação importante ou apneia, pode ser necessário fornecer ventilação com pressão positiva e, eventualmente, estabelecer uma via aérea avançada.

Tabela 2
Avaliação da via aérea antes da sedação para procedimentos.
Avaliação da via aérea antes da sedação para procedimentos.

Nenhum fator de risco para via aérea anatomicamente difícil deve ser avaliado isoladamente. O ideal é fazer uma avaliação rápida e estruturada para sinais de alarme para dificuldade de intubação. Uma opção é o mnemônico LEMON (Look externally, Evaluate 3-3-2, Mallampati, Obstruction, Neck mobility) [9]. Uma avaliação estruturada também é sugerida para dificuldade de ventilação BVM e cricotireoidostomia (tabela 2).

Pré-sedação: jejum, equipe, materiais e termo de consentimento

Jejum

Em procedimentos urgentes, o tempo de jejum não deve ser usado isoladamente para adiar a sedação [1,10]. Pacientes que apresentam risco de aspiração como apneia obstrutiva do sono, obesidade, obstrução gastrointestinal ou que passarão por endoscopia devem ser avaliados individualmente para a necessidade de atrasar o procedimento após a ingestão de dieta regular.

Em procedimentos eletivos, as recomendações são semelhantes a de procedimentos cirúrgicos [11,12]:

  • 2 horas para líquidos claros (água, sucos sem resíduo, chá)
  • 6 horas para leite e refeições leves (como torradas e líquidos claros)
  • 8 horas para refeições gordurosas ou carne vermelha.

Obesidade, isoladamente, não justifica prolongamento automático do jejum [13]. Entretanto, suspeita de gastroparesia, obstrução gastrointestinal, disfagia importante ou outras condições que retardem o esvaziamento gástrico exige avaliação cuidadosa quanto aos tempos de jejum [14].

Equipe e materiais

Todo procedimento deve contar com um profissional responsável pela observação contínua do paciente. Esse profissional deve acompanhar a ventilação, a oxigenação, a circulação, o nível de consciência e a resposta após cada dose administrada, sem estar concentrado exclusivamente na execução do procedimento [1].

A equipe deve incluir pelo menos um profissional capaz de reconhecer obstrução, ventilar com bolsa-válvula-máscara, inserir dispositivos supraglóticos, realizar intubação e conduzir suporte avançado de vida. Quando houver sedação profunda, o médico responsável pela sedação não deve acumular simultaneamente a execução do procedimento [15].

Durante sedação moderada ou profunda, deve-se monitorar pressão arterial, frequência cardíaca, saturação e profundidade da sedação, em geral a cada cinco minutos, e sempre após uma nova dose ou mudança clínica relevante [1].

Equipamentos sugeridos para o procedimento:

  • Aspirador e oxigênio, com bolsa-válvula-máscara para ventilação com pressão positiva, se necessário
  • Equipamentos para via aérea: cânulas orofaríngeas e nasofaríngeas de tamanhos adequados, laringoscópio/videolaringoscópio, tubos e dispositivos supraglóticos
  • Medicamentos reversores: naloxona, flumazenil
  • Monitorização: oximetria de pulso, capnografia, ECG e pressão arterial não invasiva
  • Equipamentos: desfibrilador/DEA funcionante e carrinho de emergência com medicamentos para suporte avançado de vida (ACLS)
  • Acesso intravenoso checado.

Termo de consentimento

O consentimento deve ser obtido antes dos procedimentos eletivos, sempre que o paciente tiver capacidade para decidir [1]. O processo deve explicar:

  • Finalidade da sedação.
  • Profundidade pretendida.
  • Benefícios esperados.
  • Possibilidade de progressão involuntária para sedação mais profunda.
  • Riscos de hipoventilação, apneia, hipoxemia, obstrução de via aérea, hipotensão, náuseas, vômitos, aspiração e reações medicamentosas.
  • Possibilidade de ventilação com máscara, uso de dispositivos supraglóticos, intubação ou outras medidas de ressuscitação.
  • Alternativas, como procedimento sem sedação, anestesia local ou bloqueio regional.
  • Restrições após a alta.
  • Necessidade de acompanhante.

Não existe um modelo nacional único de termo obrigatório para toda sedação. O CFM reconhece que o consentimento verbal, documentado no prontuário, é utilizado em muitos procedimentos, mas recomenda a elaboração de termo escrito, especialmente quando o procedimento é eletivo, invasivo ou envolve riscos relevantes [16]. O consentimento da sedação pode ser um documento separado ou integrar o termo do procedimento, desde que a sedação esteja claramente contemplada.

Medicamentos: propofol, etomidato, midazolam, cetamina e fentanil

A administração deve ser titulada em doses incrementais, aguardando-se tempo suficiente para avaliar o efeito da dose anterior antes de uma nova administração (veja tabela 3). Doses iniciais ou incrementos excessivos podem provocar sedação mais profunda que a pretendida e mais efeitos adversos [17,18]. Quando sedativos e opioides são combinados, as doses de ambos devem ser reduzidas.

Tabela 3
Medicamentos para sedação em procedimentos.
Medicamentos para sedação em procedimentos.

Propofol

O propofol apresenta início de ação rápido, geralmente entre 30 e 60 segundos, e duração curta. Essas características permitem ajuste rápido da profundidade e recuperação mais breve, tornando-o útil em procedimentos de curta duração [19].

Não possui efeito analgésico. Quando o procedimento provoca dor, a analgesia deve ser oferecida por meio de opioide, cetamina, anestesia local ou bloqueio regional.

A dose padrão inicial é de 0,5 a 1 mg/kg em bolus lento. Pode-se repetir doses de 0,25 a 0,5 mg/kg a cada 3 minutos até atingir o nível de sedação desejado [20]. 

Os principais efeitos adversos são hipotensão, hipoventilação e apneia. Em pacientes com hipovolemia, fragilidade ou baixa reserva cardiovascular, devem-se utilizar doses menores e considerar alternativas com menor efeito hemodinâmico, como o etomidato.

Para pacientes idosos, é prudente iniciar a sedação com doses reduzidas [21]. Em pacientes obesos, considerar o uso da dose pelo cálculo do peso ajustado para altura [22].

Etomidato

Seu início de ação é rápido, em torno de 45 segundos, com duração de 5 a 10 minutos, também sendo uma opção para procedimentos curtos e com rápida recuperação. Está menos associado a hipotensão e bradicardia quando comparado ao propofol e midazolam [23]. Também não apresenta efeito analgésico.

Doses iniciais variam de 0,1 a 0,15 mg/kg, podendo repetir dose de 0,05 mg/kg a cada 3 minutos conforme nível de sedação desejado. 

Mioclonias são frequentes e podem interferir em procedimentos que exijam imobilidade ou manipulação osteomuscular [24]. Náuseas e vômitos também são mais frequentes do que com outros sedativos. O etomidato pode causar supressão adrenal transitória após uma única dose, mas a relevância clínica dessa alteração durante uma sedação breve permanece incerta [25,26].

Midazolam

O midazolam produz ansiólise, sedação e amnésia anterógrada. Seu efeito costuma começar entre um e três minutos, com pico em três a cinco minutos, e pode persistir por 30 a 60 minutos ou mais. A recuperação geralmente é mais lenta que com propofol ou etomidato [27]. 

A dose inicial recomendada é de 0,02 a 0,03 mg/kg em infusão lenta (1 a 2 minutos) [1]. Doses podem ser repetidas a cada 2 a 5 minutos. Por acumular em tecido adiposo, doses repetidas podem aumentar o tempo de duração [28].

Depressão respiratória é o efeito adverso mais comum, principalmente quando associado com fentanil [29].

Cetamina

Sua ação ocorre em menos de um minuto e apresenta duração de 5 a 10 minutos. 

A dose inicial deve ser de 1 a 1,5 mg/kg em um a dois minutos, sendo a dose dissociativa da cetamina. Doses de 0,25 a 1 mg/kg podem ser repetidas a cada 5 minutos [1]. 

Doses subdissociativas, geralmente entre 0,1 e 0,3 mg/kg, podem ser utilizadas para analgesia. A administração lenta, ao longo de aproximadamente 10 a 15 minutos, reduz tontura, alterações perceptivas e sensação de irrealidade [30]. Doses entre 0,3 e 0,5 mg/kg podem produzir sedação parcial ou dissociação incompleta e não devem ser consideradas puramente analgésicas.

A combinação de cetamina com propofol, conhecida como “ketofol”, pode reduzir a dose total de propofol e atenuar a hipotensão em alguns pacientes [31]. Veja mais em "Cetamina".

Fentanil

O fentanil é um opioide de início rápido utilizado para tratar a dor provocada pelo procedimento. Não produz amnésia e, isoladamente, não costuma fornecer a profundidade de sedação necessária para intervenções mais dolorosas [32].

A dose inicial habitual é de 0,5 a 1 micrograma/kg, administrada lentamente. Doses adicionais de 0,25 a 0,5 micrograma/kg podem ser utilizadas após três a cinco minutos. Quando associado a midazolam, propofol ou outro sedativo, devem ser utilizadas doses menores [33].

Os principais efeitos adversos são hipoventilação, apneia, náuseas e hipotensão. Administração rápida ou doses elevadas podem causar rigidez da parede torácica, dificultando a ventilação [32].

Procedimentos e escolha dos medicamentos

A escolha dos medicamentos deve considerar três características [1]:

  • Duração do procedimento.
  • Intensidade e duração do estímulo doloroso.
  • Profundidade de sedação necessária.

Também devem ser considerados risco de hipotensão, risco respiratório, necessidade de imobilidade, experiência da equipe e disponibilidade de anestesia local ou regional.

Endoscopia e colonoscopia

Endoscopia é um procedimento que costuma durar 5 a 7 minutos e colonoscopia de 15 a 25 minutos [34,35]. Este procedimento costuma causar dor leve a moderada.

A American Society for Gastrointestinal Endoscopy (ASGE) recomenda uma sedação leve a moderada para estes procedimentos [36]. Em pacientes de alto risco para complicações, pode-se considerar realizar o procedimento sem sedação. Eles recomendam o uso de midazolam ou propofol em conjunto com um opioide forte. Em pacientes de risco de hipotensão, pode-se considerar não realizar o opioide. 

Em uma meta-análise recente, a combinação etomidato com opioides foi mais segura com menos episódios de bradicardia e menor tempo para recuperação comparado aos outros sedativos [23]. É uma alternativa segura principalmente em pacientes de risco para eventos adversos cardiovasculares [37].

Cardioversão elétrica

Cardioversão é um procedimento de curta duração com tempo médio do sedativo para o primeiro choque de 1 a 2 minutos [38]. Geralmente exige sedação profunda, com ausência de resposta ao choque e rápida recuperação.

A European Society of Cardiology (ESC) cita midazolam, propofol e etomidato como opções para sedação para cardioversão [39]. Por ser um procedimento curto, propofol e etomidato são opções melhores por apresentarem menor tempo para recuperação (5 a 10 minutos versus 20 a 30 minutos com midazolam) [40].

O etomidato apresenta um perfil de segurança melhor que o propofol com relação a depressão respiratória e hipotensão e pode ser considerado o medicamento de escolha em pacientes de risco [41].

Uso de opioide não é obrigatório. O choque causa dor, mas não costuma gerar dor significativa após. Adicionar opioide ao esquema de sedação pode aumentar o risco de apneia e hipotensão [42,43].

Redução de luxação e fraturas

A manipulação dura um tempo curto e o procedimento causa dor intensa. Medicamentos sedativos com componente analgésico podem ser a escolha preferencial [1]. 

Propofol reduz o tempo para redução radiográfica de luxações quando comparado ao midazolam e apresenta menor tempo de recuperação comparado ao midazolam e cetamina [19]. Uso da cetamina de forma isolada fornece sedação dissociativa além de analgesia, com menor risco de eventos adversos respiratórios [6,44]. 

Não deve-se usar propofol isoladamente por não apresentar ação analgésica, sendo uma alternativa combinar com cetamina. Veja mais em "Cetamina".

Em pacientes com alto risco de complicações e luxação do ombro, lidocaína intra-articular é uma opção [45,46].

Monitorização durante procedimento e quando interromper

Frequência cardíaca, pressão arterial e saturação periférica de oxigênio devem ser registradas antes do início do procedimento e avaliados frequentemente com monitor multiparamétrico com alarmes previamente estabelecidos para alterações críticas [1]. O profissional responsável pela monitorização deve também avaliar nível de consciência, resposta verbal e resposta motora.

A American Society of Anesthesiologists (ASA) recomenda uso suplementar de oxigênio em pacientes com sedação moderada a profunda [47]. O uso de oxigênio suplementar reduz a frequência de hipoxemia, porém não reduz desfechos adversos como intubação ou PCR, e pode causar atrasos na detecção de apneia. Por esse motivo, a American College of Emergency Physicians recomenda oxigênio suplementar de forma individualizada, e se usada, considerar associação com capnografia para detectar apneia precocemente [48].

Oximetria de pulso é obrigatória, mas pode ser um indicativo tardio de apneia. Em pacientes com oxigênio suplementar a saturação periférica pode se manter acima de 90% mesmo com hipoventilação importante ou apneia [49]. Por isso, um profissional deve manter avaliação periódica da frequência respiratória e profundidade de sedação. 

Capnografia contínua pode ser utilizada se disponível, sendo capaz de detectar hipoventilação precocemente e evitar episódios de hipoxemia [50]. Deve ser interpretada frequentemente e pode detectar:

  • Redução da amplitude de onda com queda do EtCO2 (pressão parcial de dióxido de carbono ao final da expiração): hipoventilação hipopneica
  • Redução da frequência respiratória: hipoventilação bradipneica
  • Perda da monitorização de onda: apneia, obstrução de via aérea ou sistema desconectado
  • Sinais de alarme pré-apneia: EtCO2 menor que 30 ou maior que 50 mmHg [7].

Algumas alterações clínicas que exigem que o procedimento seja interrompido estão descritas na tabela 4. Sinais de alarme para complicação devem servir para detecção precoce e manejo antes de algum evento adverso maior.

Tabela 4
Monitorização durante procedimento, sinais de alerta e quando interromper.
Monitorização durante procedimento, sinais de alerta e quando interromper.

O manejo das complicações mais comuns é [1,7]: 

  • Apneia e hipoxemia: um manejo gradual consiste em estimular respiração profunda, suplementar oxigênio se hipoxemia, usar ventilação positiva com bolsa-válvula-máscara se esforço respiratório inadequado. Deve-se considerar o uso de reversores em casos que há falha destas medidas.
  • Hipotensão: cessar infusão de sedativos e avaliar bolus de cristaloides ou vasopressores.
  • Bradicardia: frequentemente está relacionada a hipóxia, hipoventilação, estímulo vagal ou efeito medicamentoso. A prioridade é corrigir a causa. Em casos refratários, deve-se seguir algoritmos de bradicardia sintomática.

Recuperação e quando liberar

A monitorização deve continuar após o término do procedimento até que o risco de obstrução, hipoventilação, nova sedação e instabilidade cardiovascular tenha diminuído [1].

A meta é o retorno sustentado a uma condição próxima do estado basal. O paciente deve estar desperto ou no nível habitual de consciência, manter a via aérea sem intervenção, apresentar ventilação espontânea adequada e permanecer com sinais vitais estáveis [1]. Dor, náuseas e vômitos devem estar controlados, e não deve haver sangramento ou complicação relevante do procedimento.

O uso da escala de PADSS modificada pode ser usado para auxiliar na alta para domicílio, com uma pontuação ≥ 9 considerada como segura (tabela 5) [51].

Tabela 5
PADSS modificado.
PADSS modificado.

Situações que exigem observação prolongada

Pacientes que receberam naloxona ou flumazenil devem permanecer em observação por mais tempo devido ao risco de nova sedação. Os antagonistas podem ter duração menor que a do opioide ou benzodiazepínico utilizado. Recomenda-se observação por aproximadamente duas horas após a última dose do antagonista, podendo ser necessário um período maior conforme o medicamento feito, a dose acumulada e as funções hepática e renal [1].

Doses repetidas de midazolam, opioides ou outros sedativos também podem prolongar a recuperação, principalmente em idosos, pacientes frágeis e pessoas com disfunção orgânica.

Orientações após a alta

O paciente e o acompanhante devem receber orientações verbais e escritas de como entrar em contato com o serviço após a alta e orientações de sinais de alarme para procura de pronto-atendimento [1].

Em geral, durante as 24 horas seguintes, o paciente não deve dirigir, operar máquinas, consumir álcool, utilizar sedativos não autorizados nem tomar decisões legais, financeiras ou profissionais importantes [52].

Edição #175

Diagnóstico da Doença de Parkinson

Criado em: 07 de Setembro de 2026 Autor: Revisor: Raphael Coelho

A doença de Parkinson aumentou em prevalência nas últimas décadas [1]. Pode se manifestar com sintomas motores e não motores, que precisam ser diferenciados de doenças mimetizantes para tratamento correto [2]. Este tópico aborda os sintomas, a investigação, os critérios diagnósticos e sinais de alarme para diagnósticos diferenciais da doença de Parkinson.

O que é Parkinsonismo e doença de Parkinson?

Parkinsonismo é um termo utilizado para uma síndrome motora caracterizada por bradicinesia, tremor de repouso e/ou rigidez, podendo incluir instabilidade postural [3-5].

A doença de Parkinson (DP) é uma doença neurodegenerativa que apresenta degeneração de neurônios dopaminérgicos da substância nigra e se caracteriza por sintomas motores e não motores [5,6].

A DP é a principal causa de parkinsonismo, representando até aproximadamente metade dos casos [7,8]. Outras causas incluem parkinsonismo induzido por drogas, doenças cerebrovasculares e doenças do grupo do parkinsonismo atípico, como atrofia de múltiplos sistemas (AMS), paralisia supranuclear progressiva (PSP) e degeneração corticobasal (DCB) [7,8]. A tabela 1 traz diagnósticos diferenciais de parkinsonismo e a tabela 2, os medicamentos associados ao parkinsonismo [2].

Tabela 1
Causas de parkinsonismo secundário.
Causas de parkinsonismo secundário.
Tabela 2
Medicamentos selecionados associados a parkinsonismo induzido por drogas.
Medicamentos selecionados associados a parkinsonismo induzido por drogas.

A DP costuma ser identificada entre 65 e 70 anos com o pico da incidência entre 80 e 84 anos [3,5,9,10]. Cerca de 25% dos pacientes adoecem antes dos 65 anos, 5 a 10% antes dos 50 anos [5] e menos de 5% antes dos 40 anos [9]. 

A DP é classificada como de início precoce quando iniciada antes dos 40 a 50 anos, sendo mais comum em doenças genéticas monogênicas. Nessa idade, diagnósticos diferenciais devem ser avaliados, como doenças genéticas, metabólicas (por ex. doença de Wilson), medicamentosas, tóxicas e estruturais [2,5].

Manifestações clínicas

A DP é uma doença progressiva e os sintomas motores cardinais são bradicinesia, rigidez e tremor de repouso [5,11]. Incluem constipação, dor, hiposmia, distúrbios do sono (em especial, o transtorno comportamental do sono REM ou TCSREM), sintomas neuropsiquiátricos e declínio cognitivo [5]. São chamados de prodrômicos quando precedem os sintomas motores [3-6] (tabela 3). 

Tabela 3
Sintomas da doença de Parkinson.
Sintomas da doença de Parkinson.

Subtipos da doença de Parkinson

A DP tem apresentações variáveis e pode ser classificada em subtipos, com prognósticos diferentes [3].

Por fenótipo, pode ser classificada em tremor-predominante, rígido-acinética ou instabilidade postural com alteração de marcha (do inglês, postural instability-gait disturbance ou PIGD). A forma tremor-predominante é associada à progressão mais lenta e menor declínio cognitivo [2,4].

Uma proposta de classificação recente identificou três fenótipos [3,12-14]:

  • Predomínio motor leve (49-53%): idade de início mais jovem (média de 58 anos), sintomas motores predominantes, sintomas não motores leves, progressão lenta e melhor resposta à levodopa;
  • Difuso maligno (9-16%): sintomas motores mais graves com problemas de marcha mais precoces e de evolução rápida, pior resposta à levodopa, maior frequência de TCSREM, declínio cognitivo leve e hipotensão ortostática;
  • Intermediário (35-39%): caracterizada por uma resposta moderada a boa à levodopa e progressão mais lenta da doença em relação ao fenótipo difuso.

 
Não existe consenso sobre uma classificação de subtipos clínicos da DP. Os fenótipos podem mudar ao longo da evolução e diferentes métodos de análise produzem agrupamentos distintos. Essas classificações são mais úteis para pesquisa e para estimativa prognóstica [2].

Sintomas motores: bradicinesia, rigidez, tremor e instabilidade postural

O início dos sintomas motores costuma ser assimétrico e predominar em membros superiores [15]. Instabilidade postural é mais comum em fases tardias [16-20].

Na DP, os pacientes geralmente apresentam resposta clara e sustentada à terapia dopaminérgica, ao contrário de parkinsonismos atípicos [11,16]. Pode ocorrer discinesia induzida por levodopa, caracterizada por movimentos anormais e involuntários em resposta ao tratamento, que é critério de suporte ao diagnóstico de DP, segundo a Movement Disorder Society (MDS) [4,16]. 

A tabela 4 traz orientações adaptadas da Movement Disorder Society (MDS) para a avaliação dos principais sintomas motores da doença de Parkinson.

Tabela 4
Exame neurológico no paciente com suspeita de doença de Parkinson.
Exame neurológico no paciente com suspeita de doença de Parkinson.

Sintomas motores cardinais

Bradicinesia é definida como lentidão de movimento combinada à redução de amplitude e/ou velocidade à medida que o movimento é continuado [16]. O paciente pode queixar-se de lentidão nas tarefas diárias e diminuição de destreza manual fina, como ao abotoar a camisa ou manusear talheres [17]. Diagnósticos diferenciais incluem fraqueza motora, lentificação psicomotora (psíquica ou associada a declínio cognitivo) e condições sistêmicas como hipotireoidismo [21,22]. 

Rigidez é a resistência ao movimento passivo das articulações, contínua e uniforme, independentemente da velocidade [16]. Na DP, é caracterizada pelo aspecto de "cano de chumbo" [17]. Pode acometer articulações proximais e distais e manifestar-se como dor, sendo confundida com problemas ortopédicos [23,24]. A manobra de coativação pode aumentar a sensibilidade de casos leves e consiste na realização de movimentos voluntários no membro contralateral [17]. Também pode ocorrer o fenômeno da "roda denteada", com interrupções intermitentes e bruscas à movimentação passiva, mas que não configura isoladamente rigidez [16,25]. Um diagnóstico diferencial de rigidez é a espasticidade, que também é uma forma de hipertonia (tabela 5) [26].

Tabela 5
Diferenciação entre rigidez e espasticidade.
Diferenciação entre rigidez e espasticidade.

O tremor de repouso costuma ser distal, unilateral, e com frequência de 4 a 6 Hz [16]. A tremulação em pronação-supinação, como contar moedas, é típica da DP [17]. Pode haver também tremor de mandíbula e membros inferiores [17]. Tipicamente, o tremor é suprimido durante o movimento e no sono [16,17]. Tremor cinético (associado ao movimento) e postural (associado à postura sustentada) não são definidores da DP, mas podem ocorrer em até metade dos pacientes [16,27]. O tremor reemergente pode ocorrer quando o tremor de repouso, suprimido ao se assumir uma nova postura, retorna após segundos de latência com os braços estendidos horizontalmente [16,17].

Apesar de cardinal, o tremor pode estar ausente em até 20 a 30% dos pacientes [3,15,17]. Um diagnóstico diferencial é o tremor essencial que costuma ser mais rápido (5-10 Hz). Características que favorecem tremor essencial incluem predomínio postural ou no movimento, maior simetria, acometimento cefálico ou vocal e ausência de outras manifestações parkinsonianas [17].

Instabilidade postural e marcha

Instabilidade postural é caracterizada pela redução de reflexos posturais e dificuldade de recuperar o equilíbrio após estímulo externo. Pode ser avaliada pelo "pull-test", no qual o examinador aplica um deslocamento abrupto para trás, pelos ombros do paciente, observando o número de passos corretivos necessários para recuperar o equilíbrio [28]. 

A instabilidade postural é causa frequente de quedas e ambas geralmente ocorrem em fases tardias na DP [11,16,17]. Quedas recorrentes nos primeiros 3 anos da doença são sinais de alarme para parkinsonismos atípicos [2,11,16,17]. Em um estudo retrospectivo, a mediana de tempo entre início dos sintomas e a primeira queda foi de 108 meses na DP, contra 12 na paralisia supranuclear progressiva e 42 na atrofia de múltiplos sistemas [29].

A marcha típica da DP é de passos curtos e base estreita, com viradas "em bloco", redução do balanço passivo dos braços e postura fletida. Pode ocorrer camptocormia, que é uma postura encurvada em ortostase, sem deformidade fixa, que desaparece em posição supina [30,31]. O "freezing" da marcha, caracterizado por hesitação súbita para iniciar, virar ou superar obstáculos, torna-se mais frequente com a progressão da doença [17,31]. A marcha da hidrocefalia de pressão normal (HPN) pode ser diferenciada daquela da DP pelo acometimento predominantemente em membros inferiores. A base é alargada, de passos curtos e aspecto magnético (impressão de estar com os pés “grudados” no chão), enquanto o tremor é incomum e o balanço passivo dos membros superiores tende a estar preservado [2,31].

Sintomas não motores e prodrômicos

Sintomas não motores são muito comuns na DP e reduzem a qualidade de vida [5,32]. Apesar de frequentes na DP, esses sintomas também são comuns na população geral e, isoladamente, apresentam baixa especificidade para o diagnóstico da doença. Em um estudo transversal, os mais frequentes foram fadiga, ansiedade, dor nas pernas, insônia e urgência miccional/noctúria [32]. Uma meta-análise identificou como os mais comuns a hiposmia, constipação, ansiedade, transtorno comportamental do sono REM (TCSREM), depressão e sonolência diurna excessiva [33].

Sintomas cognitivos e neuropsiquiátricos constituem o grupo de sintomas não motores mais prevalentes na DP. Pacientes podem apresentar depressão (35%), ansiedade (30%), apatia (35%), psicose/alucinações (25 a 40%) e sintomas associados à terapia dopaminérgica (14%) [32,34,35]..

A psicose costuma ser leve e piorar em frequência e gravidade durante a evolução da doença [34]. As alucinações são predominantemente visuais, caracterizadas por fenômenos ou ilusões de presença e passagem (sensação de que algo ou alguém está ou passou por perto) [34]. Alucinações complexas precoces (formas de animais ou pessoas bem formadas, por exemplo) sugerem diagnósticos alternativos, como doença por corpos de Lewy (DCL) [11].

Comprometimento cognitivo leve ocorre em até 20% dos pacientes no diagnóstico inicial, com progressão lenta nos primeiros 3 a 5 anos. É caracterizado principalmente por comprometimento de atenção, função executiva e visuoespacial [35]. Demência costuma surgir mais frequentemente em fases tardias e seu início precoce sugere outros diagnósticos [3,5].

Sintomas autonômicos, como hipotensão ortostática, constipação intestinal, disfunção sexual e urinária, e alterações da sudorese podem estar presentes durante todo o curso da doença e são mais intensos em fases avançadas [2,4,4,5,17]. Falência autonômica precoce, com hipotensão ortostática, disfunção termorregulatória, gastrintestinal, erétil e urinária graves sugerem diagnósticos diferenciais, como atrofia de múltiplos sistemas [2-4,17]. 

Sintomas prodrômicos podem iniciar décadas antes do diagnóstico e progredir mesmo após o início dos sintomas motores [6,36]. Em um estudo retrospectivo, 98,8% dos pacientes relataram algum sintoma prodrômico, com início médio recordado 10 anos antes do diagnóstico; porém, dada a inespecificidade dos sintomas, estes também podem estar presentes em pacientes sem DP [37]. Uma meta-análise identificou hiposmia (35,5%), depressão (23%), constipação (20%), ansiedade (18,8%) e TCSREM (17,9%) como os sintomas prodrômicos mais prevalentes [33]. A figura 1 ilustra a evolução temporal dos sintomas na DP. 

Figura 1
Linha do tempo dos sintomas na doença de Parkinson.
Linha do tempo dos sintomas na doença de Parkinson.

Exames complementares

O diagnóstico de DP é essencialmente clínico, segundo os critérios diagnósticos atuais da Movement Disorder Society (MDS) [16]. Exames complementares contribuem pouco na definição do diagnóstico dos quadros clínicos típicos, sendo importantes para pacientes com sinais sugestivos de diagnósticos diferenciais ou em situações de dúvida [2,4,5,16].  

Ressonância magnética (RM) de crânio é indicada por alguns autores na presença de sinais de alarme ou critérios de exclusão para DP [5]. É útil para afastar lesões estruturais ou achados sugestivos de parkinsonismos atípicos. RM de crânio com estudo de nigrossomo-1 (NS1) e neuromelanina (NM) são utilizadas para investigar parkinsonismos neurodegenerativos [2,4,5,11]. A RM com pesquisa de NS1 tem sensibilidade de 98% e especificidade de 95% para distinguir pacientes com DP de controles saudáveis [38]. Esse exame não é capaz de distinguir isoladamente DP de outras formas de parkinsonismo degenerativo e são examinador dependente [2,4,38].

A tomografia por emissão de fóton único (SPECT ou Cintilografia cerebral) com radiotraçador direcionado ao transportador de dopamina (DaT) é um exame que pode mostrar captação reduzida nos gânglios da base em parkinsonismos neurodegenerativos (figura 2) [3]. No Brasil, um marcador comum utilizado é o SPECT-TRODAT (99mTc-TRODAT-1). O SPECT é altamente acurado para diferenciar DP de etiologias não degenerativas que apresentam captação normal, como parkinsonismo medicamentoso ou tremor essencial [2,3,3-6]. Esse exame não é capaz de diferenciar etiologias neurodegenerativas de parkinsonismo. [2-4,6]. Nos critérios MDS, imagem funcional normal do sistema dopaminérgico pré-sináptico é critério absoluto de exclusão para DP.

Figura 2
SPECT e ressonância magnética na doença de Parkinson.
SPECT e ressonância magnética na doença de Parkinson.

A cintilografia cardíaca com metaiodobenzilguanidina marcada com iodo-123 (MIBG) pode identificar alterações nas fibras simpáticas pós-ganglionares do coração, que são acometidas na DP e na demência por corpúsculos de Lewy, mas geralmente preservadas em parkinsonismos atípicos [5,39]. É usada em casos de dúvida diagnóstica, e serve como critério de suporte para o diagnóstico de DP [5,16]. A interpretação deve considerar fatores que podem alterar a captação, como insuficiência cardíaca, cardiomiopatia isquêmica, neuropatia autonômica diabética e determinados medicamentos [40].

Anosmia pode ser detectada no teste olfatório e está presente em cerca de 90% dos pacientes com DP. Anosmia confirmada por testes padronizados (UPSIT e “Sniffin Sticks”) é usada como critério de suporte para o diagnóstico de DP [2,5,16]. Dado o baixo custo e facilidade de aplicação, alguns autores sugerem que sejam realizados em todos pacientes com suspeita de DP [2]. 

A polissonografia pode identificar o transtorno comportamental do sono REM (TCSREM), que é fortemente associado ao risco de DP e está presente em aproximadamente 30 a 50% dos pacientes com DP [3,41]. Cerca de metade dos pacientes com TCSREM espontâneo converte para alguma forma de parkinsonismo em uma década e até 90% desenvolvem alguma doença neurodegenerativa durante a vida [41]. Segundo a MDS, TCSREM confirmado por PSG tem razão de verossimilhança positiva (RVP) de 130 e negativa (RVN) de 0,65 para diagnóstico de DP prodrômica. Em comparação, hiposmia confirmada por teste tem RVP de 6,4 e RVN de 0,40 e constipação tem RVP de 2,5 e RVN de 0,82 [42].

A amplificação de sementes de alfa-sinucleína é um exame laboratorial desenvolvido recentemente, de disponibilidade limitada comercialmente no Brasil até a data de publicação deste tópico [2-5]. Avanços em biomarcadores de α-sinucleína motivaram propostas recentes de classificação biológica da doença [43].

Em pacientes com DP de início precoce, com história familiar positiva ou provenientes de populações de alto risco, testes genéticos devem ser considerados [4].
 

Critérios diagnósticos

O diagnóstico definitivo da DP é anatomopatológico [4,5]. 

Em 2015, a Movement Disorder Society (MDS) propôs critérios diagnósticos, direcionados para pesquisa, mas que podem ser utilizados clinicamente para diagnóstico [3,5,16] (fluxograma 1).

Fluxograma 1
Fluxograma para diagnóstico clínico de doença de Parkinson, conforme critérios da Movement Disorder Society (MDS) de 2015.
Fluxograma para diagnóstico clínico de doença de Parkinson, conforme critérios da Movement Disorder Society (MDS) de 2015.

Para diagnóstico clínico de DP, o paciente deve (tabela 6):

  • Obrigatoriamente preencher o critério de parkinsonismo, definido por bradicinesia, associada a tremor de repouso e/ou rigidez
  • Não apresentar qualquer critério de exclusão
Tabela 6
Critérios de exclusão, critérios de suporte e sinais de alarme pelos critérios da MDS 2015.
Critérios de exclusão, critérios de suporte e sinais de alarme pelos critérios da MDS 2015.

Em seguida, avalia-se a quantidade de critérios de suporte e sinais de alarme. Há DP clinicamente estabelecida quando há pelo menos 2 critérios de suporte e nenhum sinal de alarme [16]. A DP é clinicamente provável quando há até 2 sinais de alarme e a mesma quantidade de critérios de suporte, no mínimo.

Sinais de alarme e critérios de exclusão devem ser analisados no contexto adequado, pois podem ocorrer no paciente com Parkinson e outra doença concomitante, como por exemplo um AVC prévio [11,44].

Em um estudo multicêntrico de 2018, em comparação com a opinião de especialistas com mais do que 10 anos de experiência no diagnóstico de DP, os critérios da MDS para diagnóstico de DP clinicamente provável tiveram sensibilidade de 94,5%, especificidade de 88,5%, e acurácia de 92,6%, em comparação com 98,4% de especificidade e 59,3% de sensibilidade para DP clinicamente estabelecida, nos primeiros 5 anos de doença [45].

Outro estudo retrospectivo que utilizou diagnóstico anatomopatológico como padrão-ouro identificou, para os critérios de DP provável, sensibilidade de 87,9% e especificidade de 91,3%, comparado a 58,2% e 99,2% para DP estabelecida [46].