Edição #176

Trombose Venosa Profunda: Diagnóstico e Tratamento

Criado em: 14 de Setembro de 2026 Autor: Fernanda Nunes de Arruda Revisor: Luiza Axelrud

A trombose venosa profunda associa-se a risco de tromboembolismo pulmonar, recorrência e morbidade crônica. Cerca de um em cada cinco pacientes apresenta recorrência em cinco anos e a síndrome pós-trombótica ocorre em 25–50% dos casos [1,2]. Este tópico aborda o quadro clínico, a estratégia diagnóstica e o tratamento dessa condição.

Quadro clínico

A localização anatômica da trombose venosa profunda (TVP) influencia o risco de complicações e a conduta. Nos membros inferiores, a TVP é classificada em:

  • Proximal: acomete a veia poplítea ou segmentos acima dela, incluindo as veias femorais e ilíacas.
  • Distal: restrita às veias abaixo da poplítea, incluindo as tibiais posteriores, fibulares e veias musculares da panturrilha, como as gastrocnêmicas e soleares.

TVP nos membros superiores é rara. Está associada a dispositivos como cateter venoso central, esforço excessivo (síndrome de Paget-Schroetter), síndrome do desfiladeiro torácico e neoplasias [3]. 

A trombose venosa superficial, tradicionalmente chamada de tromboflebite superficial, é uma entidade distinta. Acomete principalmente as veias safenas magna e parva e suas tributárias. Apresenta menor risco de complicações, mas pode se estender ao sistema venoso profundo [4].

Fatores de risco

A identificação de fatores de risco é central para a suspeita de TVP, pois os sinais e sintomas isolados apresentam baixa acurácia [5]. Cenários de risco frequente são tromboembolismo venoso (TEV) prévio, neoplasia ativa, cirurgia ou trauma recente, imobilização e hospitalização. Gestação e puerpério, uso de estrogênios e idade avançada também aumentam o risco. 

Sinais e sintomas

TVP deve ser uma suspeita diante de dor ou edema unilateral de início recente, especialmente na presença de fatores de risco. O quadro pode evoluir ao longo de horas a semanas e incluir sensibilidade no trajeto venoso profundo, calor e eritema [6]. A apresentação pode ser discreta, e algumas TVPs são totalmente assintomáticas e detectadas incidentalmente [7].

O exame físico tem baixa acurácia para o diagnóstico [5]. O achado com maior poder preditivo é a diferença na circunferência da panturrilha acima de 3 cm, medida 10 cm abaixo da tuberosidade da tíbia, mas com tamanho de efeito pequeno (tabela 1) [5]. Sinais clássicos, como o sinal de Homans (dor na panturrilha à dorsiflexão), não auxiliam no diagnóstico.

Tabela 1
Acurácia dos achados clínicos para o diagnóstico de TVP.
Acurácia dos achados clínicos para o diagnóstico de TVP.

Apenas cerca de um quarto dos pacientes sintomáticos com suspeita de TVP terá o diagnóstico confirmado [8]. Os diagnósticos alternativos mais comuns são insuficiência venosa crônica, linfedema, síndrome pós-trombótica, trombose venosa superficial, lesão muscular ou hematoma, ruptura de cisto de Baker e celulite [6,9].

Complicações

O risco de progressão para tromboembolismo pulmonar (TEP) sintomático varia de até 2,5% na TVP distal até 7% para TVP proximal
[10-12]. Um terço das TVP pode estar associado a TEP assintomático [13]. Veja mais em "Tromboembolismo Pulmonar" e "Tromboembolismo Pulmonar: Nova Diretriz Americana de 2026".

Flegmasia cerúlea dolens é uma apresentação rara e grave da TVP, em geral secundária à trombose iliofemoral extensa. Ocorre por comprometimento significativo da drenagem venosa, causando congestão e isquemia do membro. Deve ser suspeitada quando há dor intensa, edema importante, cianose do membro, redução dos pulsos, parestesias, déficit motor ou gangrena [14]. A avaliação do cirurgião vascular é necessária com urgência, e a taxa de amputação é de até 15% [15].

Síndrome pós-trombótica ocorre em até 30% dos pacientes [16]. É caracterizada pela persistência de sinais e sintomas de insuficiência venosa crônica após mais de 3 a 6 meses da trombose [17]. Múltiplas ferramentas podem ser utilizadas para o seu diagnóstico, como o escore de Villalta [18]. 

Diagnóstico

A investigação dos pacientes ambulatoriais com suspeita de TVP pode ser feita em três passos para otimizar o atendimento e a solicitação de exames (fluxograma 1) [19-21]. O raciocínio combina probabilidade pré-teste estimada com alguma ferramenta, D-dímero e ultrassonografia.

Fluxograma 1
Avaliação da probabilidade pré teste com escore de Wells.
Avaliação da probabilidade pré teste com escore de Wells.

1) Avaliação da probabilidade pré-teste

Após considerar a hipótese de TVP, o primeiro passo é estimar a probabilidade por ferramentas validadas. O escore mais utilizado é o de Wells modificado de 2003, que classifica a TVP como provável (≥ 2 pontos) ou improvável (< 2 pontos)  (fluxograma 1) [22]. A versão original de 1997 estratifica a probabilidade em baixa, moderada ou alta e também pode ser utilizada [23].

A aplicação desse escore é limitada em algumas populações: 

  • Pacientes internados: as principais diretrizes incluem pacientes internados no algoritmo de investigação, mas o escore não tem boa acurácia nesse contexto [24]. A principal limitação é não conseguir identificar com segurança um grupo de baixo risco. Alguns autores recomendam usar diretamente exames de imagem nesse cenário [2]. 
  • Gestantes: não deve ser aplicado, pois foram excluídas dos estudos de validação.
  • Suspeita de TVP de membro superior: não apresenta boa acurácia. A diretriz da American Society of Hematology (ASH) recomenda o escore de Constans [21,25].

2) D-dímero

Utilizado somente para pacientes com TVP improvável por um escore de probabilidade. Cerca de 5% desses pacientes apresentam TVP, não sendo possível excluir o diagnóstico apenas pelos critérios clínicos [22]. O exame tem uma sensibilidade acima de 95%, com especificidade de 35% [21]. 

A combinação de um escore de Wells com pontuação improvável e D-dímero baixo tem alto valor preditivo negativo para excluir TVP. Estratégias prospectivamente validadas permitem encerrar a investigação com segurança, sem exame de imagem. Pacientes com D-dímero elevado devem seguir investigação com exame de imagem (fluxograma 2) [22].

Fluxograma 2
Fluxograma diagnóstico da trombose venosa profunda em pacientes ambulatoriais.
Fluxograma diagnóstico da trombose venosa profunda em pacientes ambulatoriais.
 

As diretrizes da ASH e do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) recomendam considerar o uso do limite de D-dímero ajustado para idade em pacientes ambulatoriais acima de 50 anos [21]. Nos exames expressos em unidades equivalentes de fibrinogênio (FEU), esse limite corresponde à idade multiplicada por 10 ng/mL (exemplo: 800 ng/mL aos 80 anos). Até os 50 anos, mantém-se o limite convencional de 500 ng/mL. O estudo ADJUST-DVT de 2026 reforçou a segurança dessa estratégia [26].

3) Exame de imagem

A ultrassonografia com compressão venosa (USG) é o exame de escolha para o diagnóstico de TVP. Está indicado para pacientes com TVP provável ou TVP improvável com D-dímero positivo [19,21]. O exame pode ser restrito aos segmentos proximais (femoral e poplíteo) ou avaliar todo o membro, incluindo as veias profundas da panturrilha. 

Se o USG for negativo, o consenso da Society of Radiologists in Ultrasound recomenda repetir o exame em 5 a 7 dias nos seguintes casos [27]:

  • USG restrito a segmentos proximais.
  • Sintomas persistentes ou em piora.
  • Alto risco para TVP sem outra etiologia definida.
  • Exame tecnicamente inadequado.

A ultrassonografia à beira do leito (POCUS), quando realizada por médicos não radiologistas adequadamente treinados, apresenta alta acurácia para TVP proximal [28,29]. Contudo, um exame negativo deve seguir as mesmas orientações de repetição do exame aplicadas à ultrassonografia proximal, quando indicada.

Situações especiais

A diretriz da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular sugere considerar angiotomografia ou angiorressonância venosas quando o ultrassom for inconclusivo ou inviável [30]. A ultrassonografia pode ser tecnicamente difícil em pacientes com cirurgias recentes, trauma, lesões de pele, contraturas ou índice de massa corpórea muito elevado. As diretrizes da ASH, NICE e da Society of Radiologists in Ultrasound não trazem recomendações sobre o uso desses exames nesses casos [21,27,31].

O diagnóstico de recorrência de TVP no mesmo membro é desafiador, pois 30 a 50% dos pacientes mantêm alterações residuais no USG [21]. A ASH estabelece o diagnóstico quando há trombo em território novo ou aumento do diâmetro venoso > 4 mm durante a compressão em comparação com o exame anterior. Exames prévios devem ser obtidos nesse contexto, pois auxiliam na interpretação dos novos achados.

Na suspeita de trombose iliocaval, a recomendação é realizar ultrassonografia iliocaval, angiotomografia ou angiorressonância venosas [27]. 

Tratamento inicial

Anticoagulação

O principal tratamento para TVP é a anticoagulação (tabela 2). O tratamento previne a progressão do trombo e reduz a ocorrência de novos episódios de TVP e TEP. 

Tabela 2
Dose de anticoagulantes para tromboembolismo venoso.
Dose de anticoagulantes para tromboembolismo venoso.

O manejo ambulatorial é recomendado para a maioria dos pacientes [32,33]. A 
ASH sugere considerar hospitalização para pacientes com TVP ameaçadora ao membro, alto risco de sangramento, necessidade de analgesia intravenosa, baixo suporte social ou história de má adesão [32].

Os anticoagulantes orais de ação direta (DOAC) são os anticoagulantes de escolha na maioria dos casos [30,32]. Eles possuem eficácia semelhante a outros fármacos, menor risco de sangramento e maior facilidade posológica. As principais situações que exigem cautela ou contraindicam o uso dos DOACs estão na tabela 3. Veja mais em "Anticoagulantes Orais Diretos (DOACs): Bulário".

Tabela 3
Situações especiais no manejo do tromboembolismo venoso.
Situações especiais no manejo do tromboembolismo venoso.

O American College of Cardiology (ACC) recomenda preferir apixabana, devido ao menor risco de sangramento em comparação à rivaroxabana [34]. Veja mais em "Apixabana versus Rivaroxabana Para Anticoagulação Plena: Estudo COBRRA de 2026".
 
A varfarina é reservada para pacientes com contraindicações ou indisponibilidade de acesso aos DOACs ou para quando há superioridade da droga, como síndrome antifosfolípide (SAF) ou próteses valvares mecânicas [34]. Veja mais em "Varfarina: Bulário e Quando Preferir em Relação aos DOACs".

As heparinas são utilizadas quando há necessidade de rápida interrupção ou reversão da anticoagulação (como aqueles que passarão por procedimentos), em pacientes criticamente enfermos, gestantes ou impossibilitados de receber medicamento oral [30]. A heparina não fracionada é preferida na insuficiência renal grave. Dabigatrana e edoxabana exigem tratamento parenteral inicial com heparina. Varfarina deve ser iniciada com sobreposição de heparina.

Observação clínica

Não iniciar anticoagulação imediatamente e acompanhar com USG seriada é uma opção para casos selecionados de TVP distal, sem sintomas e com os seguintes critérios [33]:

  • Paciente ambulatorial.
  • D-dímero negativo.
  • Trombo em uma única veia, distante de veias proximais, com < 5 cm de extensão e < 7 mm de diâmetro.
  • Trombose provocada por fator de risco transitório e reversível.
  • Sem história de neoplasia ou TVP prévia.

Esses pacientes devem ser seguidos com USG seriada por 2 semanas para avaliar progressão do trombo, e a anticoagulação deve ser iniciada se houver progressão, especialmente para veias proximais [33]. As evidências são inconsistentes sobre os benefícios da anticoagulação nessa população [10,35]. 

Outras intervenções

Trombólise por cateter: medida de exceção [36]. A diretriz da ASH sugere considerar nos casos de flegmasia cerúlea dolens com alto risco de perda do membro e em tromboses iliofemorais extensas e sintomáticas em pacientes jovens com baixo risco de sangramento [37]. Não há indicação de trombólise sistêmica [32]. 

Filtro de veia cava inferior: pode ser indicado para pacientes com contraindicação à anticoagulação [32]. Deve ser retirado assim que o paciente puder receber anticoagulantes [32]. Essa recomendação tem baixo nível de evidência, considerando que os poucos estudos experimentais foram realizados em pacientes já anticoagulados e não demonstraram melhora de desfechos [38,39]. 

Deambulação precoce: em pacientes estáveis e adequadamente anticoagulados, não aumenta o risco de novo TEP ou progressão da TVP e pode acelerar a melhora da dor [40].

Meias de compressão: não são recomendadas de rotina [32]. No estudo SOX, não reduziram a incidência de síndrome pós-trombótica em comparação com meias placebo [41].

Acompanhamento

Tempo de anticoagulação

A duração da anticoagulação depende se o evento foi associado a um fator de risco transitório, a um fator persistente ou a nenhum fator identificável, além do risco de sangramento e das preferências do paciente (fluxograma 3 e tabela 4) [32,33]:

  • TEV associado a fator transitório: quando o fator desencadeante foi resolvido, recomenda-se anticoagulação por três a seis meses. Após a suspensão, o risco de recorrência varia conforme o desencadeante, sendo aproximadamente 0,7% ao ano após cirurgia e 4,2% ao ano após fatores transitórios não cirúrgicos [42]. Se o fator ainda estiver presente, mas houver expectativa de resolução, a duração deve ser individualizada.
  • TEV associado a fator persistente: após a fase inicial de três a seis meses, geralmente se recomenda manter a anticoagulação enquanto o fator estiver presente, desde que o risco de sangramento seja aceitável. Para neoplasias, por exemplo, a American Society of Clinical Oncology (ASCO) recomenda estender a anticoagulação além de 6 meses para pacientes com neoplasia metastática ou em quimioterapia, pesando risco e benefício [43]. Já a ASH recomenda estender também em pacientes com neoplasia diagnosticada ou tratada há menos de 6 meses [44].
  • TEV sem fator de risco identificável (“não provocado”): a anticoagulação deve ser mantida por tempo indeterminado, desde que o risco de sangramento não seja alto [32,33]. Sem anticoagulação, o risco de recorrência é elevado, de aproximadamente 7,4% ao ano ou mais [42,45]. Uma meta-análise encontrou que estender a anticoagulação no TEV não provocado reduz em 80% o risco de recorrência (número necessário para tratar [NNT] de 20), embora aumente o risco de sangramento maior (número necessário para causar dano [NNH] acima de 160). A diretriz da ASH recomenda não utilizar escores prognósticos, D-dímero ou repetir USG para avaliar suspensão de anticoagulação nesses casos.
Fluxograma 3
Tempo de anticoagulação no tromboembolismo venoso.
Tempo de anticoagulação no tromboembolismo venoso.

Tabela 4
Fatores de risco para tromboembolismo venoso (TEV).
Fatores de risco para tromboembolismo venoso (TEV).

Dose de anticoagulação

ASH e ACC trazem como opção reduzir a dose de apixabana e rivaroxabana após 6 meses para pacientes com indicação de anticoagulação por tempo indefinido (tabela 2) [32,34]. Ensaios clínicos de não inferioridade com apixabana encontraram menor risco de sangramento e eficácia semelhante ao comparar doses convencionais com doses reduzidas após 6 meses [46,47]. A rivaroxabana 10 mg não atingiu critérios de não inferioridade para recorrência de TEV em comparação com 20 mg no ensaio clínico RENOVE, embora esse achado possa estar associado à falta de poder estatístico do estudo [48]. Contudo, o trabalho também encontrou menor taxa de sangramento com a dose reduzida.

A anticoagulação por tempo indefinido em dose reduzida pode ser considerada também para pacientes com comorbidades que aumentem o risco trombótico [34]. 

O estudo HI-PRO avaliou a anticoagulação estendida em TEV precipitado por um fator transitório, mas com fatores de risco menores persistentes (como obesidade, doença inflamatória e doença arterial) [49]. A apixabana 2,5 mg duas vezes ao dia reduziu a recorrência em comparação ao placebo, com aumento de sangramentos não maiores clinicamente relevantes. Veja mais em "ESC 2025: Potássio para Risco de Arritmias, Apixabana Prolongada para TEV, Betabloqueadores Após IAM".

Exames

Não há indicação de investigação de trombofilias de rotina [30,50]. A pesquisa deve ser reservada a situações em que o resultado possa modificar a conduta, como suspeita de síndrome antifosfolípide. Veja mais em "Investigação de Trombofilias". O rastreio para neoplasias deve ser feito conforme indicação habitual [30].

Não é indicado repetir o USG para acompanhamento durante o tratamento [27]. Progressão modesta do trombo pode ocorrer mesmo durante anticoagulação adequada e não indica mudança de tratamento. 

Edição #176

Aspirina vs. Rivaroxabana na Profilaxia de Tromboembolismo Venoso Após Artroplastia: Estudo EPCAT III

Criado em: 14 de Setembro de 2026 Autor: Revisor: Luiza Axelrud

Não há consenso quanto ao agente preferencial para a profilaxia de tromboembolismo venoso após artroplastia total de quadril ou joelho. Alguns aceitam a aspirina como uma entre várias opções, enquanto outros a recomendam como estratégia preferencial [1-3]. O ensaio clínico EPCAT III foi publicado em julho de 2026 no New England Journal of Medicine e comparou rivaroxabana com ácido acetilsalicílico para profilaxia de tromboembolismo venoso após artroplastia total de quadril ou joelho [4]. Este tópico aborda o estudo e suas implicações.

Contexto

As artroplastias totais de quadril e joelho estão entre os procedimentos cirúrgicos associados a maior risco de tromboembolismo venoso (TEV), motivo pelo qual a tromboprofilaxia é recomendada de rotina [1,2]. Em uma estimativa do American College of Chest Physicians (ACCP), a heparina reduziria o risco de TEV sintomático de 4,3% sem profilaxia para 1,8%, aproximadamente 25 eventos evitados a cada 1.000 pacientes, correspondendo a um número necessário para tratar (NNT) de cerca de 40 [1]. Esse cálculo utiliza estudos mais antigos e modelagem do risco basal, mas pode ser útil como noção do tamanho do efeito.

Embora a anticoagulação pareça a estratégia mais intuitiva, a formação do trombo venoso também envolve ativação plaquetária. O ácido acetilsalicílico (AAS) tem baixo custo, administração oral, ampla disponibilidade e não necessita de monitorização laboratorial, o que estimulou a sua aplicação na profilaxia de TEV nesse contexto [5].

As diretrizes atuais divergem quanto ao melhor método para prevenir TEV no pós-operatório de artroplastias eletivas de quadril e joelho (tabela 1). O documento do International Consensus Meeting on Venous Thromboembolism (ICM-VTE) de 2022 recomenda o AAS como profilaxia preferencial (alta concordância) [3]. Já o posicionamento do ACCP de 2012 aceita o AAS, mas sugere preferir heparina de baixo peso molecular (grau de recomendação 2C) [1]. A diretriz da American Society of Hematology (ASH) de 2019 sugere AAS ou anticoagulante, com evidência de certeza muito baixa, enquanto o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) apresenta diferentes opções conforme a articulação operada [2,6]. Essas recomendações se baseiam em múltiplos ensaios clínicos de pós-operatório de cirurgias ortopédicas. 

Tabela 1
Recomendações de diretrizes selecionadas para tromboprofilaxia medicamentosa em artroplastias eletivas.
Recomendações de diretrizes selecionadas para tromboprofilaxia medicamentosa em artroplastias eletivas.

Quatro estudos delineavam a evidência sobre o uso do AAS nesse contexto:

  • PEP: randomizou 17.444 pacientes submetidos a cirurgia por fratura do quadril ou artroplastia eletiva para AAS 160 mg/dia ou placebo por 35 dias. O AAS reduziu o TEV sintomático em aproximadamente um terço, mas o estudo permitia outras formas concomitantes de profilaxia e não realizou uma comparação direta com anticoagulantes [7].
  • EPCAT I: após 10 dias de dalteparina, 778 pacieentes submetidos a artroplastia do quadril foram randomizados para mais 28 dias de dalteparina ou AAS. O AAS foi não inferior, mas o estudo avaliou apenas a fase estendida da profilaxia [8].
  • EPCAT II: após cinco dias de rivaroxabana, 3.424 pacientes submetidos a artroplastia do quadril ou joelho foram randomizados para AAS ou manutenção da rivaroxabana. Novamente, o AAS foi não inferior como profilaxia estendida [9].
  • CRISTAL: comparou AAS com enoxaparina desde o primeiro dia após artroplastia de quadril ou joelho. Houve maior incidência de TEV sintomático com o AAS (3,45% contra 1,82%), diferença determinada principalmente por trombose venosa profunda (TVP) distal (infrapatelar). O recrutamento foi interrompido após uma análise interina atingir o critério preestabelecido de interrupção [10].

Enquanto EPCAT I e II respaldavam o AAS após um período inicial de anticoagulação, o CRISTAL levantou dúvidas sobre sua eficácia quando iniciado imediatamente após a cirurgia. Faltava um ensaio que comparasse o AAS desde a primeira dose com uma estratégia que utilizasse anticoagulação nos primeiros dias de pós-operatório.

O estudo EPCAT III

O EPCAT III foi um ensaio clínico multicêntrico, randomizado, duplo-cego e de não inferioridade que comparou AAS desde o início da profilaxia contra rivaroxabana seguida de AAS após artroplastia total eletiva de quadril ou joelho [4]. O estudo foi realizado em 15 centros universitários do Canadá.

  • Critérios de inclusão: adultos submetidos a artroplastia total unilateral e eletiva de quadril ou joelho, primária ou de revisão.
  • Critérios de exclusão: os principais foram alto risco trombótico, como TEV prévio, fratura de quadril ou de membro inferior nos três meses anteriores, câncer metastático, necessidade de anticoagulação prolongada e artroplastia bilateral ou simultânea. Também foram excluídos pacientes com contraindicação aos medicamentos estudados, como sangramento maior prévio considerado impeditivo, úlcera péptica ativa, hepatopatia significativa, depuração de creatinina < 15 mL/min ou contagem de plaquetas < 100.000/µL.
  • Intervenção: AAS 81 mg/dia ou rivaroxabana 10 mg/dia durante as primeiras cinco doses pós-operatórias, iniciadas na noite após a cirurgia ou no primeiro dia pós-operatório. Todos receberam AAS 81 mg/dia a partir da sexta dose, completando 14 dias de profilaxia após artroplastia de joelho e 35 dias após artroplastia de quadril.
  • Desfecho primário de eficácia: TEV sintomático em até 90 dias, definido como TVP de veia poplítea ou mais proximal ou tromboembolismo pulmonar (TEP), confirmados por exame objetivo (ultrassonografia, angiotomografia pulmonar ou cintilografia de ventilação-perfusão).
  • Desfecho primário de segurança: sangramento maior ou sangramento clinicamente relevante não maior em até 90 dias.
  • Outros desfechos: óbito por qualquer causa. O protocolo previa uma análise de custo-utilidade, mas os resultados econômicos não foram apresentados.
  • Análise: a margem de não inferioridade foi definida em 0,7% para a diferença absoluta no risco de TEV, com base na incidência de TEV de 0,7% observada no grupo rivaroxabana do EPCAT II [4]. As análises foram realizadas por intenção de tratar modificada.

Foram randomizados 5.429 pacientes, dos quais 5.365 integraram a análise por intenção de tratar modificada. A idade média foi de 66,5 anos e 56,9% eram mulheres. A artroplastia de joelho representou 53,1% dos procedimentos e a de quadril, 46,9%. Cerca de 8% dos pacientes já utilizavam AAS cronicamente e sua manutenção no período perioperatório ficava a critério do médico assistente. Se mantido, o AAS habitual era administrado adicionalmente ao tratamento randomizado. Métodos de compressão mecânica foram utilizados em 19,5% dos pacientes. O tempo médio de internação foi de 1,1 dia e 55,4% receberam alta no mesmo dia da cirurgia. A pontuação média no escore STOP-VTE foi de 1,1 e 3,4% dos pacientes foram classificados como de alto risco (tabela 2).

Tabela 2
Escore STOP-VTE de risco de tromboembolismo venoso em artroplastia eletiva de quadril e joelho.
Escore STOP-VTE de risco de tromboembolismo venoso em artroplastia eletiva de quadril e joelho.
  • Resultado do desfecho primário de eficácia: o AAS preencheu o critério de não inferioridade em relação à estratégia de rivaroxabana seguida de AAS. A incidência de TEV sintomático em 90 dias foi de 0,48% com AAS e 0,45% com rivaroxabana–AAS (diferença de risco de 0,02%, IC 95% –0,34 a 0,39). 
  • Resultado do desfecho primário de segurança: não houve diferença estatisticamente significativa no desfecho composto de sangramento maior ou sangramento clinicamente relevante não maior, ocorrendo em 1,66% com aspirina vs. 2,04% com rivaroxabana (diferença de risco de -0,38%, IC 95%, -1,11 a 0,34).
  • Óbitos: ocorreram três óbitos em cada grupo (0,11%). Entre os seis óbitos, apenas um foi atribuído a TEP e ocorreu no grupo rivaroxabana–AAS.
  • Análises adicionais: uma análise restrita aos que receberam pelo menos 75% das doses foi concordante com a análise principal, com incidência de TEV de 0,42% no grupo AAS e 0,47% no grupo rivaroxabana–AAS (diferença de risco de –0,05%; IC 95% –0,41 a 0,31). Não foram observadas diferenças segundo tipo de cirurgia, uso crônico de AAS ou uso de métodos de compressão. Em uma análise post-hoc incluindo TVP distal sintomática, o critério de não inferioridade foi mantido.

Implicações para a prática

O EPCAT III sustenta o AAS desde a primeira dose pós-operatória em pacientes de risco habitual para TEV após artroplastia total eletiva de quadril ou joelho. O estudo preenche a principal lacuna deixada pelos estudos EPCAT I e II, nos quais o AAS era iniciado somente após um período inicial com anticoagulantes. 

Pacientes com alto risco de TEV foram pouco representados. Quando classificados pelo STOP-VTE, 96,6% apresentavam risco habitual. Além disso, foram excluídos aqueles com TEV prévio, síndrome antifosfolípide com trombose prévia, neoplasia metastática e fratura recente de quadril ou membro inferior. Artroplastias de revisão corresponderam a apenas 3,4% dos procedimentos e mais da metade dos pacientes teve alta no mesmo dia. Os resultados não devem ser extrapolados diretamente para esses grupos.

Esse perfil de pacientes explica a baixa taxa de eventos do estudo, com somente 25 pacientes apresentando o desfecho primário. O critério de não inferioridade foi preenchido, mas não houve diferença estatisticamente significativa nos sangramentos, não sendo possível concluir que o AAS seja mais seguro. Custo e simplicidade do esquema são vantagens práticas para o AAS, mas não foi publicada uma análise formal de custo-efetividade.

O estudo foi realizado exclusivamente no Canadá e não coletou dados sobre raça ou etnia. Essas características exigem cautela ao extrapolar as taxas absolutas de eventos para serviços brasileiros com diferentes perfis de pacientes e cuidados perioperatórios.

Os resultados do EPCAT III diferem do CRISTAL [10]. O CRISTAL comparou AAS com enoxaparina durante todo o período de profilaxia e incluiu TVP distal sintomática no desfecho primário. Esse estudo foi interrompido após uma análise interina atingir a regra preestabelecida de interrupção por maior incidência de TEV com AAS, determinada principalmente pelas TVP distais. Entretanto, esse componente explica apenas parte da divergência, pois considerando somente TVP proximal e TEP, a incidência com AAS ainda foi de 1,3% no CRISTAL, em comparação com aproximadamente 0,5% no EPCAT III. Diferenças na população, no comparador e nos cuidados perioperatórios podem ter contribuído.

O estudo PEPPER fornecerá informações adicionais. Esse ensaio pragmático incluiu 18.883 pacientes e comparou AAS 81 mg duas vezes ao dia, rivaroxabana 10 mg/dia e varfarina de baixa intensidade, mantidos por cerca de um mês [11]. Em um resumo preliminar restrito a 8.357 pacientes submetidos a artroplastia de quadril, o AAS se associou a maior incidência de TEV que a rivaroxabana (1,27% vs. 0,83%), enquanto a rivaroxabana apresentou maiores incidências de sangramento (3,49% vs. 1,92%) e óbito por qualquer causa (0,38% vs. 0,15%) [12]. Esses dados sugerem um possível equilíbrio entre prevenção de trombose e risco de sangramento, mas estão disponíveis apenas como resumo. Esse possível sinal de mortalidade não deve ser interpretado como benefício do AAS antes da publicação completa do estudo.

A principal implicação do EPCAT III é permitir considerar o AAS isoladamente como opção em pacientes de risco habitual após artroplastia eletiva.

Edição #176

Doença de Sjögren: Manifestações e Diagnóstico

Criado em: 14 de Setembro de 2026 Autor: Revisor: Frederico Amorim Marcelino

A doença de Sjögren tem como manifestação clássica a secura ocular e oral, mas a repercussão clínica frequentemente ultrapassa o acometimento glandular. No registro brasileiro de doença de Sjögren (BRAS), sete em cada dez pacientes apresentavam manifestações sistêmicas e houve atraso diagnóstico médio de 3,7 anos [1]. Este tópico aborda as manifestações e diagnóstico dessa condição.

Epidemiologia e nomenclatura

A doença de Sjögren é uma condição autoimune sistêmica crônica caracterizada principalmente pelo comprometimento das glândulas salivares e lacrimais [2]. A apresentação típica combina secura ocular e oral, mas manifestações sistêmicas são possíveis, como artralgia ou artrite, fenômeno de Raynaud e neuropatia periférica.

Um consenso internacional de 2025 recomendou atualizar a nomenclatura da condição [3]:

  • Doença de Sjögren: termo atualmente preferido em substituição à síndrome de Sjögren. A denominação “doença” reforça seu reconhecimento como uma entidade autoimune definida, além de um conjunto de sintomas sugerido pelo termo “síndrome”. 
  • Doença de Sjögren primária: quando a doença ocorre na ausência de outra doença autoimune sistêmica coexistente.
  • Doença de Sjögren associada: descritor utilizado quando a doença coexiste com outra doença autoimune sistêmica. Essa nomenclatura é preferível ao termo “secundária”.
  • Síndrome sicca (ou síndrome seca): conjunto de sintomas de ressecamento, especialmente ocular e oral. Possui diversas causas e não é sinônimo de doença de Sjögren. Seu uso histórico como sinônimo de Sjögren ainda aparece na Classificação Internacional de Doenças (CID-10).

O termo “secundária” deve ser evitado, porque sugere que a doença de Sjögren decorre ou ocupa posição subordinada a outra doença autoimune. Essa relação não foi demonstrada. Além disso, essa classificação contribuiu historicamente para definições heterogêneas e para a exclusão desses pacientes de estudos clínicos [4]. A distinção entre “primária” ou “associada” permanece útil principalmente em pesquisas, para definir populações mais homogêneas.

A prevalência estimada da doença de Sjögren é de 0,01% a 0,05% [5]. Em um registro internacional com 8.310 pacientes, 93% eram mulheres (aproximadamente 14 mulheres para cada homem), e a média de idade ao diagnóstico foi de 53 anos [6]. No Brasil, um estudo populacional em Vitória resultou em uma prevalência estimada de 0,17% (intervalo de confiança de 95% de 0,02% a 0,60%) [7].

Manifestações clínicas glandulares

Secura ocular e xerostomia são as manifestações glandulares mais comuns da doença de Sjögren. No registro brasileiro BRAS, estavam presentes em 91,6% e 93% dos pacientes, respectivamente [1]. Também pode haver ressecamento nasal, cutâneo e vaginal, além de sintomas nas vias aéreas superiores [8,9].

A investigação deve ser considerada diante de secura ocular ou oral diária, persistente e incômoda, especialmente quando os dois sintomas coexistem. As perguntas da tabela 1 são úteis como triagem e constam nos critérios classificatórios do American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism (ACR/EULAR) de 2016 [10].

Tabela 1
Avaliação de xeroftalmia e xerostomia na anamnese.
Avaliação de xeroftalmia e xerostomia na anamnese.

Exame físico

Ao exame, podem ser encontrados mucosa seca, ausência de saliva acumulada no assoalho da boca, língua fissurada ou despapilada, candidíase oral e cáries novas e múltiplas, especialmente cervicais ou radiculares [11].

O aumento das glândulas salivares na doença de Sjögren acomete principalmente as parótidas. Pode ser unilateral ou bilateral, intermitente ou persistente, e é habitualmente indolor. Em uma coorte latino-americana, ocorreu em aproximadamente um terço dos pacientes e frequentemente precedeu ou coincidiu com o diagnóstico [12]. Aumento novo, persistente, assimétrico ou endurecido exige investigação de linfoma ou neoplasia.

Diagnóstico diferencial

Essas queixas também estão presentes na população geral, dificultando o diagnóstico [13-15]. Causas alternativas de síndrome seca sempre devem ser consideradas (tabela 2). 

Tabela 2
Diagnósticos diferenciais e causas não-Sjögren de síndrome seca.
Diagnósticos diferenciais e causas não-Sjögren de síndrome seca.

Secura ocular e oral tornam-se mais frequentes com a idade [16]. Em pessoas idosas, devem ser pesquisados especialmente medicamentos, diabetes, doenças tireoidianas, cirurgia ocular prévia e radioterapia de cabeça e pescoço. Hipofunção glandular objetiva, complicações orais, aumento das glândulas salivares ou manifestações sistêmicas aumentam a suspeita de doença de Sjögren [17,18].

A sialoadenite bacteriana aguda pode ser um diagnóstico diferencial do aumento glandular e também uma complicação da doença de Sjögren, favorecida pela redução do fluxo salivar. Caracteriza-se por aumento agudo, doloroso e geralmente unilateral de uma glândula salivar, frequentemente acompanhado por febre, eritema, dor à palpação ou secreção purulenta pelo óstio do ducto [19]. Episódios de dor e aumento glandular precipitados pelas refeições sugerem obstrução ductal por sialolitíase (mais comum na glândula submandibular) ou estenose do ducto [20].

Manifestações clínicas extraglandulares

Manifestações sistêmicas ou extraglandulares clinicamente relevantes ocorrem em média em 40–50% dos pacientes com doença de Sjögren (tabela 3). Fadiga e sintomas articulares estão entre as manifestações mais frequentes. Doença pulmonar intersticial, vasculite (especialmente quando associada à crioglobulinemia), neuropatias, acometimento renal e linfoma são menos frequentes, porém têm maior impacto sobre morbidade e prognóstico [21].

Tabela 3
Principais manifestações extraglandulares da doença de Sjögren.
Principais manifestações extraglandulares da doença de Sjögren.

Uma minoria dos pacientes pode apresentar a doença sem síndrome seca, com acometimento predominantemente extraglandular. Em uma coorte de 1.738 pacientes com o diagnóstico, 2,2% não apresentavam queixa de secura e os principais motivos que levaram à investigação foram artralgia, aumento da parótida, fenômeno de Raynaud e linfonodomegalia persistente [22].

  • Manifestações cutâneas: xerose, podendo se associar a descamação e prurido, e fenômeno de Raynaud são frequentes [23,24]. A vasculite cutânea é menos comum (4-10%), cursando com lesões púrpúricas de membros inferiores, lesões urticariformes ou máculas e pápulas eritematosas (figura 1) [25]. Púrpura recorrente ou extensa, especialmente na presença de crioglobulinemia ou hipocomplementemia, associa-se a maior atividade sistêmica e risco de linfoma [26]. 
Figura 1
Acometimento cutâneo na doença de Sjögren.
Acometimento cutâneo na doença de Sjögren.
  • Manifestações musculoesqueléticas: artralgia está presente em até metade dos pacientes. Artrite é mais rara e tende a ser simétrica, intermitente, não deformante e não erosiva, acometendo mãos, punhos e joelhos [27]. Artrite persistente, erosiva e mais intensa, especialmente na presença de anti-CCP, deve levantar a possibilidade de sobreposição com artrite reumatoide [28,29]. 
  • Manifestações pulmonares: o acometimento de vias aéreas é frequente, cursando com tosse seca crônica, além de bronquiolite, bronquiectasias e infecções respiratórias recorrentes. A doença pulmonar intersticial é menos comum, porém tem maior relevância prognóstica. O padrão tomográfico de pneumonia intersticial não específica (PINE) é o mais comum [30]. Múltiplos cistos pulmonares de paredes finas podem ocorrer na pneumonia intersticial linfocítica (PIL) ou na bronquiolite folicular. A associação entre cistos e nódulos deve motivar investigação de amiloidose ou linfoma do tecido linfoide associado à mucosa (MALT) [21,31]. Veja mais em "Doenças do Interstício Pulmonar: Abordagem Inicial e Novas Classificações de 2025".
  • Manifestações neurológicas: a neuropatia periférica ocorre em aproximadamente 15% dos pacientes e pode preceder ou levar ao diagnóstico da doença de Sjögren. A polineuropatia axonal distal é a apresentação mais comum [32,33]. Quando a neuropatia tem instalação aguda/subaguda, distribuição assimétrica e dolorosa, deve-se considerar a possibilidade de acometimento neuropatia vasculítica [34]. Outras apresentações incluem neuropatia de fibras finas e ganglionopatia sensitiva. O acometimento do sistema nervoso central (SNC) é menos frequente, podendo incluir mielite transversa e neurite óptica. Essas manifestações exigem investigação de doenças desmielinizantes associadas.
  • Manifestações renais: a nefrite tubulointersticial é a apresentação mais característica e pode causar acidose tubular renal tipo I distal, frequentemente acompanhada por hipocalemia. Fraqueza ou paralisia hipocalêmica, nefrolitíase, nefrocalcinose ou acidose metabólica com ânion gap normal podem ser as pistas iniciais, mesmo com sedimento urinário pouco alterado [35]. A doença glomerular é menos comum, destacando-se a glomerulonefrite membranoproliferativa associada à crioglobulinemia [36].

Linfoma

O linfoma ocorre em aproximadamente 5–10% dos pacientes com doença de Sjögren. O subtipo mais característico é o linfoma de zona marginal extranodal do tecido linfoide associado à mucosa (MALT), frequentemente envolvendo a parótida. Aumento parotídeo novo, persistente, assimétrico ou endurecido, massa em glândula salivar, linfonodomegalia, esplenomegalia e sintomas constitucionais devem motivar investigação. Púrpura, crioglobulinemia, consumo de C4 e pico monoclonal aumentam a suspeita [37]. 

Investigação e exames complementares

O fluxograma 1 apresenta uma sugestão de como investigar a suspeita de doença de Sjögren.

Fluxograma 1
Algoritmo sugerido para o diagnóstico de doença de Sjögren.
Algoritmo sugerido para o diagnóstico de doença de Sjögren.

Sorologia e exames laboratoriais

Na avaliação inicial da suspeita de doença de Sjögren, sugere-se solicitar FAN, anti-SSA/Ro, anti-SSB/La e fator reumatoide [38]. Para avaliar o acometimento sistêmico e obter marcadores prognósticos, recomenda-se também hemograma, creatinina, eletrólitos (incluindo potássio, cloro e bicarbonato), análise de urina, função hepática, C3, C4, imunoglobulinas séricas e eletroforese de proteínas [39].

O anti-Ro/SSA é o principal autoanticorpo associado ao diagnóstico de doença de Sjögren e o único pontuado nos critérios classificatórios da ACR/EULAR de 2016. A ausência do anti-Ro não exclui a doença [40]. Atualmente, o anti-La/SSB isolado não integra os critérios classificatórios e não deve ser usado isoladamente para estabelecer o diagnóstico [41]. O fator antinúcleo (FAN) e o fator reumatoide podem ser positivos, mas apresentam baixa especificidade [42-44]. Veja mais em "Fator Antinuclear (FAN): O Que o Clínico Precisa Saber".

A pesquisa de crioglobulinas é especialmente indicada na presença de púrpura, neuropatia periférica, glomerulonefrite, hipocomplementemia ou suspeita de doença linfoproliferativa. A Sociedade Brasileira de Reumatologia também recomenda sua dosagem pelo menos uma vez durante o acompanhamento e a repetição periódica quando o resultado for positivo [26]. A dosagem TSH e a investigação de infecção pelo vírus da hepatite C (HCV), vírus da imunodeficiência humana (HIV) ou vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV) podem ser acrescentadas conforme o contexto clínico [39].

Avaliação objetiva da disfunção glandular

Esses testes documentam disfunção lacrimal ou salivar, mas não determinam a causa. Resultados alterados devem ser interpretados em conjunto com o quadro clínico e os diagnósticos diferenciais. Veja mais em ‘Manifestações clínicas glandulares’.

O teste do fluxo salivar não estimulado é o único teste incluído nos critérios classificatórios de doença de Sjögren da ACR/EULAR 2016. Esse teste pode ser feito por qualquer clínico treinado [2]. Recomenda-se que seja feito sempre em jejum de 2 horas (incluindo chicletes), se possível pela manhã, sem exposição recente a cafeína, tabaco e exercício [45]. O paciente deve acumular saliva no assoalho da boca e expectorar em um frasco por 5 a 15 minutos, sem estimulação. Fluxo salivar ≤ 0,1 mL/min caracteriza hipossalivação.

A doença de Sjögren causa predominantemente olho seco por redução da produção de secreção lacrimal (olho seco aquodeficiente). O teste mais utilizado na prática para avaliar olho seco por esse mecanismo é o teste de Schirmer (figura 2). Utiliza-se uma tira de papel-filtro padronizada, colocada no fórnice conjuntival inferior durante 5 minutos, bilateralmente. Uma leitura ≤ 5 mm em 5 minutos, em pelo menos um olho, caracteriza um teste positivo. Este teste também pode ser realizado por um médico treinado, desde que feito com o material padronizado [2].

Figura 2
Teste de Schirmer.
Teste de Schirmer.

A coloração da superfície ocular quantifica o dano da córnea e da conjuntiva e geralmente requer avaliação oftalmológica com corantes e exame em lâmpada de fenda [10,46]. Esses testes também estão contemplados nos critérios classificatórios da ACR/EULAR 2016.

Exames de imagem

A ultrassonografia de glândulas salivares é um exame útil, principalmente na avaliação de parótidas e submandibulares. O achado mais característico é a heterogeneidade do parênquima, com áreas hipoecoicas ou anecoicas [10,47]. A ultrassonografia também auxilia na avaliação de aumento glandular persistente ou assimétrico e na escolha do local de biópsia.

Tomografia, ressonância, cintilografia e tomografia por emissão de pósitrons (PET-CT) não são exames de rotina para o diagnóstico e ficam reservados para aumento glandular atípico, suspeita de tumor, linfoma ou outros diagnósticos diferenciais [48,49].

Biópsia de glândula salivar 

A biópsia de glândulas salivares menores do lábio inferior é a amostra histológica mais utilizada na investigação. Esse exame não é necessário para o diagnóstico. Ela é mais útil quando a suspeita clínica persiste, mas os achados clínicos e sorológicos não são conclusivos, especialmente quando o anti-SSA/Ro é negativo [39]. O procedimento pode ser feito por estomatologista, cirurgião bucomaxilofacial, otorrinolaringologista ou cirurgião de cabeça e pescoço.

O achado característico é a sialadenite linfocítica focal com escore de foco (focus score) ≥ 1 [50]. O escore de foco corresponde ao número de focos linfoides (agregados de pelo menos 50 células mononucleares) por 4 mm² de tecido glandular [10].

A biópsia de parótida é diferente da biópsia de glândula salivar menor e tem indicação distinta. É reservada principalmente para aumento persistente ou assimétrico, massa focal ou suspeita de linfoma. Nesses casos, deve-se realizar inicialmente avaliação por imagem. Biópsia por agulha grossa (core biopsy) ou biópsia cirúrgica podem ser realizadas, conforme o caso [51,52].

Critérios classificatórios

Não existe um padrão-ouro isolado para o diagnóstico da doença de Sjögren. O diagnóstico clínico resulta da integração da história, exame físico, sorologia, testes objetivos de função glandular e, quando necessário, histopatologia.

Tabela 4
Critérios classificatórios ACR/EULAR para doença de Sjögren.
Critérios classificatórios ACR/EULAR para doença de Sjögren.

Os critérios do American College of Rheumatology e European Alliance of Associations for Rheumatology (ACR/EULAR) de 2016 servem como classificação (tabela 4) [10]. A presença de um escore ≥ 4 classifica o paciente para a doença de Sjögren, desde que preenchidos os critérios de inclusão e verificada a ausência dos critérios de exclusão. Essa ferramenta não deve substituir o julgamento clínico se houver um contexto adequado para o diagnóstico.