Edição #177
Nova Definição de Infarto Agudo do Miocárdio
A quinta definição universal de infarto do miocárdio foi publicada em agosto de 2026 de maneira conjunta por European Society of Cardiology (ESC), American College of Cardiology (ACC), American Heart Association (AHA) e World Heart Federation (WHF). O documento reorganiza os tipos de infarto, refina a distinção entre injúria miocárdica aguda e crônica e atualiza o papel da troponina cardíaca, do eletrocardiograma e dos exames de imagem no diagnóstico [1]. Esse tópico aborda as principais mudanças e suas implicações.
Definição de infarto agudo do miocárdio
O diagnóstico clínico de infarto agudo do miocárdio (IAM) exige injúria miocárdica aguda associada a pelo menos uma evidência de isquemia miocárdica. Elevação isolada da troponina não é suficiente. São evidências de isquemia:
- História clínica: sintomas compatíveis com isquemia miocárdica aguda.
- Eletrocardiograma: alterações isquêmicas novas ou presumivelmente novas ou desenvolvimento de ondas Q patológicas.
- Imagem coronariana: identificação de uma patologia coronariana aguda.
- Imagem do miocárdio: nova perda de miocárdio viável ou nova alteração segmentar da contratilidade em padrão isquêmico.
A quinta definição universal abandona a classificação numérica e passa a classificar o infarto do miocárdio como primário, secundário ou relacionado a procedimento, de acordo com o contexto clínico e a fisiopatologia [1].
Injúria miocárdica aguda e crônica
Uma injúria miocárdica pode ser aguda ou crônica:
- Aguda (tabela 1): ascensão e/ou queda da troponina cardíaca I ou T, com pelo menos um valor acima do limite superior de referência correspondente ao percentil 99 específico para o sexo.
- Crônica (tabela 2): dois ou mais valores de troponina cardíaca I ou T acima do percentil 99 específico para o sexo, obtidos em um paciente clinicamente estável. A injúria miocárdica crônica é confirmada quando se identifica uma condição cardíaca ou não cardíaca associada ao remodelamento cardíaco.
O documento refina a distinção entre injúria miocárdica aguda e crônica, que foi introduzida pela quarta definição universal [2]. O IAM é uma das causas de injúria miocárdica aguda, mas mecanismos não isquêmicos também podem produzir uma curva de troponina, como inflamação, estresse hemodinâmico, cardiotoxicidade e trauma.
Uma elevação persistente da troponina pode ocorrer por interferência analítica (como macrotroponina) ou redução da depuração de troponina [3]. Quando um desses mecanismos explica o achado, a quinta definição orienta não classificá-lo como injúria miocárdica crônica. Essa distinção exige cuidado na doença renal crônica, pois apesar de a redução da depuração poder elevar a concentração basal, cardiopatia urêmica e outras alterações estruturais podem causar injúria miocárdica crônica verdadeira.
Infarto do miocárdio primário
O infarto primário substitui e amplia o antigo conceito de IAM tipo 1. Ele é considerado quando a injúria miocárdica aguda e os sintomas ou sinais de isquemia aparecem espontaneamente, sem que outra condição aguda ou um procedimento cardíaco tenha desencadeado o quadro. Aterotrombose é o mecanismo mais comum, mas essa categoria abrange todas as patologias coronarianas agudas primárias, como dissecção espontânea de artéria coronária, embolia coronariana e vasoespasmo.
Na classificação anterior, dissecção coronariana, vasoespasmo e embolia eram incluídos no IAM tipo 2 por não decorrerem de aterotrombose [2]. Esse agrupamento reunia mecanismos distintos, pois essas condições representam uma patologia coronariana aguda intrínseca, mecanismo mais próximo da aterotrombose do que de um desequilíbrio entre oferta e demanda por outra condição aguda. O tratamento apropriado depende de angiografia coronariana, com um fluxo diagnóstico inicial similar ao de infarto causado por aterotrombose, o que justifica a classificação no mesmo grupo.
O diagnóstico de infarto primário é provável quando o paciente com injúria miocárdica aguda apresenta sintomas de isquemia, alterações isquêmicas novas no eletrocardiograma ou desenvolvimento de ondas Q patológicas. A confirmação ocorre quando os exames de imagem demonstram uma patologia coronariana aguda ou uma alteração miocárdica nova em padrão isquêmico, como alteração segmentar da contratilidade no ecocardiograma ou ausência de miocárdio viável na ressonância cardíaca. Quando a angiografia ou a imagem cardíaca não estão disponíveis, a definição permite estabelecer o diagnóstico clínico pela avaliação conjunta da apresentação, da troponina e do eletrocardiograma.
Reestenose (estreitamento de um segmento coronariano previamente tratado), trombose de stent e falha de enxerto coronariano também entram nessa categoria se forem responsáveis por um infarto mais de 30 dias após uma intervenção. Quando esses eventos ocorrem nos primeiros 30 dias e têm relação causal com a intervenção, no vaso ou território tratado, são classificados como infarto relacionado a procedimento [1]. Veja mais abaixo em 'Infarto do miocárdio relacionado ao procedimento'.
Infarto do miocárdio secundário
O infarto do miocárdio secundário ocorre quando outra condição aguda provoca desequilíbrio entre a oferta e a demanda miocárdicas de oxigênio. Ele substitui o antigo conceito de IAM tipo 2. A redução da oferta pode ocorrer por anemia, hipóxia ou hipotensão; e o aumento da demanda, por taquiarritmia (fator mais comum) ou hipertensão grave [4].
No contexto de condições que causam esse desequilíbrio, o diagnóstico deve ser considerado quando uma injúria miocárdica aguda se associa a pelo menos uma evidência clínica ou eletrocardiográfica de isquemia. Os sintomas podem ser difíceis de interpretar, pois o quadro da condição aguda pode predominar. Desconforto torácico típico e supradesnivelamento do segmento ST ocorrem menos, enquanto dispneia é mais comum [5-7].
O diagnóstico torna-se provável quando, além desses critérios, há doença arterial coronariana (DAC) conhecida ou forte suspeita clínica pela extensão da isquemia no eletrocardiograma ou pela magnitude da elevação da troponina.
Quando a imagem coronariana ou cardíaca é possível e apropriada, o diagnóstico é confirmado se uma ou mais das seguintes estiverem presentes (figura 1):
- DAC obstrutiva sem patologia coronariana aguda: estenose ≥ 70% em vaso epicárdico na angiografia ou estenose ≥ 50% com repercussão funcional demonstrada por avaliação fisiológica coronariana, como pela reserva fracionada de fluxo (FFR, fractional flow reserve).
- Repercussão miocárdica compatível: anormalidade nova ou presumivelmente nova da contratilidade ou ausência de miocárdio viável em padrão isquêmico.
O diagnóstico de infarto secundário pode ser excluído se a investigação por imagem não demonstrar DAC obstrutiva ou repercussão miocárdica compatível. A identificação de uma patologia coronariana aguda favorece o diagnóstico de infarto primário. Se os exames de imagem não forem possíveis ou apropriados, o diagnóstico permanece clínico, apoiado pelo conjunto da apresentação, do eletrocardiograma e da troponina.
A base do tratamento do infarto do miocárdio secundário é tratar a condição predisponente. Se houver isquemia persistente ou recorrente, e o infarto primário permanecer como diagnóstico diferencial, está indicada angiografia coronariana invasiva. Doenças agudas como sepse e sangramento também podem desencadear aterotrombose e não afastam um infarto primário [8-11].
Quando não há suspeita de infarto primário, os exames de imagem são frequentemente postergados até que o quadro agudo seja tratado. Após a estabilização, pode-se considerar uma abordagem não invasiva, como a angiotomografia de coronárias.
Infarto do miocárdio relacionado ao procedimento
Ocorre quando uma complicação surgida em até 30 dias após um procedimento cardíaco provoca isquemia e injúria miocárdica aguda. Os procedimentos incluem angiografia coronariana com ou sem intervenção, intervenções cardíacas estruturais, ablação por cateter e procedimentos cirúrgicos cardíacos abertos ou minimamente invasivos. O risco é maior após intervenção coronariana percutânea ou cirurgia de revascularização miocárdica.
As antigas categorias de infarto tipos 4 e 5 foram reorganizadas de acordo com essa janela de 30 dias. Um infarto sem relação causal com o procedimento é classificado como primário ou secundário, mesmo que ocorra nesse período. Eventos coronarianos relacionados a um procedimento que surgem após 30 dias entram na categoria de infarto primário.
O diagnóstico deve ser considerado quando há suspeita de uma complicação coronariana em até 30 dias do procedimento, injúria miocárdica aguda e sintomas ou alteração eletrocardiográfica compatível com infarto. Uma peculiaridade dessa categoria é que uma deterioração clínica súbita e não explicada em um paciente sedado também pode ser considerada como um critério clínico de isquemia. A deterioração pode ser edema agudo de pulmão, hipotensão ou arritmia.
O eletrocardiograma deve ser interpretado com cautela após cirurgia cardíaca. Em uma coorte, 72% dos pacientes apresentaram alterações eletrocardiográficas potencialmente isquêmicas, mas esses achados tiveram baixa especificidade para infarto [12]. Alterações do segmento ST e da onda T podem ocorrer por pericardite, pneumopericárdio ou distúrbios eletrolíticos e ondas Q podem ser transitórias após cirurgia de revascularização miocárdica.
Confirmação diagnóstica
A confirmação depende da presença de um ou ambos dos seguintes achados:
- Evidência angiográfica de complicação coronariana: como oclusão de ramo, dissecção iatrogênica, trombose de stent ou falha do enxerto.
- Repercussão miocárdica compatível: alteração segmentar da contratilidade nova ou presumivelmente nova ou ausência de miocárdio viável em padrão isquêmico e no território correspondente à complicação.
A necessidade de somente uma ou ambas essas evidências depende do momento e das condições em que o procedimento foi realizado:
- Complicação ocorrida durante o procedimento ou procedimento realizado no contexto de um infarto agudo do miocárdio: para aumentar a especificidade, são necessários ambos os achados, complicação coronariana na angiografia e repercussão miocárdica.
- Novos sintomas ou sinais de isquemia após um procedimento inicialmente sem complicações, mas ainda dentro de 30 dias: um dos dois achados é suficiente, desde que relacionado ao vaso ou território tratado.
Troponina após procedimentos cardíacos
Algum grau de injúria miocárdica é frequente após procedimentos cardíacos. Na quarta definição, o componente de troponina exigia valores > 5 vezes o limite superior de referência após intervenção coronariana percutânea ou > 10 vezes após cirurgia de revascularização, associados a outras evidências de isquemia [2].
Esses pontos de corte obrigatórios foram retirados. Na definição atual, o diagnóstico torna-se mais provável quando a troponina aumenta em relação ao valor pré-procedimento e continua em ascensão após 6 horas de uma intervenção percutânea ou após 24 horas de uma cirurgia. Apesar de não estar na definição, o documento sugere que resultados mais elevados de troponina aumentam a chance de infarto relacionado ao procedimento, como valores > 5 vezes o limite superior em 6 horas após uma intervenção percutânea ou > 35 vezes o limite superior em 24 horas após uma cirurgia. Esses valores são arbitrários.
Outros tipos e apresentações
Diagnóstico de infarto após uma morte súbita
A antiga categoria de IAM tipo 3, utilizada quando o infarto era considerado a causa provável de morte antes da realização dos exames diagnósticos, foi retirada por sua limitada utilidade clínica. Quando houver elementos suficientes para considerar o infarto como causa da morte, o evento deve ser classificado como primário, secundário ou relacionado a procedimento, de acordo com o contexto clínico ou os achados post-mortem.
Os fatores que aumentam a chance de uma morte inexplicada ser devida a um infarto do miocárdio são:
- Sintomas de dor torácica ou equivalente precedendo o evento.
- História de doença coronariana.
- Fibrilação ventricular sem histórico de cardiomiopatia ou canalopatias.
Mesmo com as características acima, sem eletrocardiograma ou outros exames realizados em vida e sem investigação post-mortem, o diagnóstico permanece incerto.
Infarto do miocárdio não reconhecido (“silencioso”)
O infarto não reconhecido é identificado por alterações compatíveis com infarto prévio em uma pessoa sem história conhecida de IAM. O achado pode surgir como ondas Q patológicas, alteração segmentar da contratilidade no ecocardiograma ou cicatriz isquêmica na ressonância cardíaca.
Em uma amostra populacional, uma em cada cinco pessoas com 70 anos submetidas à ressonância cardíaca apresentou um infarto do miocárdio não reconhecido [13]. O termo “silencioso” pode ser enganoso. Muitos pacientes recordam posteriormente sintomas que não motivaram procura por atendimento ou relatam ter sido avaliados sem que o infarto fosse diagnosticado.
Ondas Q patológicas podem levantar a suspeita, mas a especificidade é limitada. Quando disponível, o diagnóstico deve ser confirmado por exame de imagem, preferencialmente ressonância cardíaca com realce tardio pelo gadolínio [14]. Uma onda Q é considerada patológica quando apresenta duração ≥ 40 ms e/ou profundidade ≥ 25% da onda R em duas derivações contíguas.
Atualização do termo MINOCA
O termo MINOCA passa a significar injúria miocárdica com artérias coronárias não obstrutivas (myocardial injury with non-obstructive coronary arteries). Anteriormente, o “I” do acrônimo correspondia a “infarto”. A mudança reconhece que a maioria desses pacientes recebe posteriormente um diagnóstico diferente de infarto, como miocardite, síndrome de Takotsubo, outra cardiomiopatia ou embolia pulmonar.
MINOCA é um diagnóstico temporário aplicado ao paciente com injúria miocárdica aguda, apresentação sugestiva de IAM e angiografia coronariana sem estenose ≥ 50%. A ausência de obstrução coronariana significativa não exclui infarto. O mecanismo isquêmico pode ser transitório, como no vasoespasmo, na embolia coronariana ou na trombose com recanalização espontânea.
A investigação adicional de MINOCA pode incluir:
- Ressonância cardíaca: idealmente nas primeiras duas semanas, para diferenciar infarto, miocardite, síndrome de Takotsubo e outras cardiomiopatias.
- Imagem intravascular, por tomografia de coerência óptica ou ultrassom intravascular: pode identificar ruptura ou erosão de placa, trombo mural e dissecção espontânea de artéria coronária.
- Testes funcionais invasivos: podem demonstrar vasoespasmo epicárdico ou disfunção microvascular coronariana.
Se a investigação confirmar que houve infarto, o evento deve ser reclassificado como primário, secundário ou relacionado a procedimento, conforme o mecanismo e o contexto clínico.
Eletrocardiograma e troponina
Troponina
A troponina cardíaca I ou T, dosada preferencialmente por ensaio de alta sensibilidade, é o biomarcador de escolha na investigação de IAM. Um valor acima do limite superior de referência correspondente ao percentil 99, específico para o ensaio e o sexo, define injúria miocárdica. Para caracterizá-la como aguda, deve haver ascensão e/ou queda da troponina. O diagnóstico de infarto exige também evidência de isquemia miocárdica.
Os limites do percentil 99 específicos para o sexo reduzem o subdiagnóstico de injúria miocárdica em mulheres. Em alguns ensaios, o limite feminino corresponde a aproximadamente metade do masculino. Historicamente, a reclassificação foi maior com a troponina I de alta sensibilidade, mas ensaios mais recentes de troponina T demonstram diferenças entre os sexos de magnitude semelhante. Embora essa estratégia aumente o reconhecimento de injúria e infarto em mulheres, ainda não foi demonstrado que sua adoção isolada melhore os desfechos clínicos [15-17].
Não existe uma variação de troponina absoluta ou percentual única que diferencie injúria aguda de crônica. Em pacientes clinicamente estáveis com valores persistentemente elevados, uma variação < 20% favorece injúria crônica estável, mas esse limite deriva principalmente da imprecisão analítica dos ensaios. Uma variação > 20% isoladamente não confirma injúria aguda ou infarto. Para concentrações próximas ao percentil 99, variações absolutas são mais precisas. Já quando os valores iniciais são muito elevados, a variação relativa pode ser mais intuitiva. Quando o tempo entre o início dos sintomas e a coleta for entre 12 e 24 horas, há menor variação do que entre 3 e 12 horas [18].
O ensaio de troponina (método e a plataforma, como Roche Elecsys e Abbott Architect/Alinity) do laboratório determina o limite do percentil 99 e também influencia o valor de variação considerado significativo. Valores e limites recomendados não são os mesmos para os diferentes ensaios. Além disso, os cortes são outros para algoritmos rápidos de avaliação de dor torácica. Nesse contexto, os valores não correspondem necessariamente ao percentil 99 e frequentemente são iguais para homens e mulheres. Veja mais em "Dor Torácica no Pronto-Socorro: Diretriz Brasileira de 2025".
Eletrocardiograma
O eletrocardiograma de 12 derivações permanece central para a identificação rápida da oclusão coronariana aguda, que exige reperfusão imediata. Entretanto, o documento reforça os problemas da classificação de IAM em com ou sem supradesnivelamento do segmento ST. Os autores reforçam a necessidade de avaliar outros padrões de alto risco sugestivos de oclusão coronariana aguda além dos critérios clássicos de supradesnivelamento do segmento ST. Exemplos incluem ondas T hiperagudas, padrão de De Winter, critérios de Sgarbossa no bloqueio de ramo esquerdo e sinais de infarto posterior. Veja mais em "Novo Paradigma de Infarto: Oclusão Coronariana Aguda".