Anticoagulante lúpico

Atualizado em: 21 de Março de 2026

Conjunto de ensaios funcionais que detecta a interferência de anticorpos antifosfolípides em testes de coagulação dependentes de fosfolipídios. Esse exame não é a dosagem direta de um anticorpo.

Descrito inicialmente em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico que apresentaram prolongamento do tempo de coagulação in vitro (em laboratório). Isso ocorre por interferência dos autoanticorpos nas reações dependentes de fosfolipídios nos ensaios da coagulação. No entanto, a positividade do teste correlaciona-se com aumento significativo no risco de trombose.

Um teste adequado deverá conter a descrição das etapas realizadas e os resultados de cada uma delas. As diretrizes da International Society on Thrombosis and Haemostasis (ISTH) recomendam o uso de pelo menos dois sistemas de testes diferentes. Os mais utilizados são o tempo de veneno de víbora de Russell diluído (dRVVT) e o tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPA). Além disso, recomenda-se a realização simultânea dos testes de mistura e confirmatório em cada amostra com teste de triagem prolongado. 

Etapas do teste

  • 1ª etapa: teste de triagem/screening. Os mais utilizados são o DRVVT e o TTPA. O plasma é testado com reagentes com baixa concentração de fosfolipídios. Se o anticoagulante lúpico estiver presente, ocorrerá prolongamento do tempo de coagulação.
  • 2ª etapa: teste da mistura. O plasma do paciente é misturado com plasma sabidamente normal, na proporção de 1:1. Se houver correção do tempo de coagulação após a mistura, a causa do prolongamento será deficiência de fator, pois o plasma adicionado tem todos os fatores. Se o tempo de coagulação permanecer prolongado após a mistura, sugere-se a presença de um anticorpo com ação inibitória no plasma do paciente.
  • 3ª etapa: teste confirmatório. Adiciona-se excesso de fosfolipídios ao teste. Se houver correção ou encurtamento significativo do tempo de coagulação, confirma-se a positividade do anticoagulante lúpico, demonstrando a dependência de fosfolipídios característica destes anticorpos.

Os resultados devem ser descritos com uma conclusão, como positivo ou negativo.

Interpretação

Em pacientes anticoagulados com varfarina, heparina ou anticoagulantes orais diretos, idealmente, o teste deve ser adiado até a descontinuação da anticoagulação. Esses medicamentos podem interferir nos ensaios e gerar tanto resultados falso-positivos quanto falso-negativos. Se o exame for solicitado nesse contexto, o resultado deve ser interpretado junto ao laboratório, com informação sobre anticoagulante em uso, horário da última dose e, quando disponível, atividade anti-Xa ou ensaio específico do anticoagulante oral direto. O resultado deve ser considerado provisório. O exame deve ser repetido depois, em momento estável e sem anticoagulação, idealmente. 

Ensaios realizados durante a gestação e logo após um evento trombótico também devem ser interpretados com cautela, devido a possíveis interferências no resultado do teste. Um resultado isolado nesses contextos deve ser visto com cautela e repetido fora dessas situações.

Para ser utilizado no diagnóstico da síndrome antifosfolipíde (SAF), o teste deve ser positivo em duas ocasiões com pelo menos 12 semanas de intervalo. Nos critérios classificatórios de 2023, uma única positividade recebe 1 ponto, enquanto o exame persistentemente positivo soma 5 pontos. Dentre os testes para diagnóstico de SAF, o anticoagulante lúpico é o marcador laboratorial mais fortemente associado à trombose e a desfechos obstétricos adversos.


Referências:

  1. Devreese KMJ, de Groot PG, de Laat B, Erkan D, Favaloro EJ, Mackie I, Martinuzzo M, Ortel TL, Pengo V, Rand JH, Tripodi A, Wahl D, Cohen H. Guidance from the Scientific and Standardization Committee for lupus anticoagulant/antiphospholipid antibodies of the International Society on Thrombosis and Haemostasis: Update of the guidelines for lupus anticoagulant detection and interpretation. J Thromb Haemost. 2020.
  2. De Kesel PMM, Devreese KMJ. The effect of unfractionated heparin, enoxaparin, and danaparoid on lupus anticoagulant testing: Can activated carbon eliminate false-positive results?. Res Pract Thromb Haemost. 2020.
  3. Tripodi A, Cohen H, Devreese KMJ. Lupus anticoagulant detection in anticoagulated patients. Guidance from the Scientific and Standardization Committee for lupus anticoagulant/antiphospholipid antibodies of the International Society on Thrombosis and Haemostasis. J Thromb Haemost. 2020.

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